Excertos do capitulo 5 do livro “O Instituto Tavistock” de Daniel Estulin (págs. 174-180)

O Apagador da Comunicação Social

E quanto à lavagem ao cérebro dos adultos? Como chegam até nós, os “crescidos”? Um dos programas de televisão espanhola preferidos por todos é Cuéntame Cómo Paso, “que se estreou no primeiro canal da televisão pública espanhola a 13 de Setembro de 2001. A ficção inicia-se em Abril de 1968, e traça um retrato da Espanha contemporânea através das peripécias de uma família da classe média, os Alcántara, que vivem, dia a dia, a transformação da Espanha franquista numa democracia moderna”.

Até aqui, tudo bem. Mas será que o programa se concentra mesmo nos verdadeiros horrores do período? Nas drogas, na destruição, na queda dos valores sociais, no paradigma da sociedade em mudança? Nem um pouco. Em vez disso, é-nos fornecida uma dieta quotidiana constituída por uma história de amor superficial entre um rapaz e uma rapariga cujos pais televisivos nunca sucumbem ao stress nem às muitas discussões familiares estereotipadas. A morte de Franco e as mudanças subsequentes são tratadas com uma espécie de moralismo degradante. Cuéntame Cómo Pasó é o que chamamos de “flashbacks controlados” dos baby boomers, ou seja, “o que estes gostariam agora de pensar que foi a década de 60. Assim, os produtores puseram-nos em contacto com as emoções mais infantis e banais, e fizeram-nos sentir saudades delas. A mensagem oculta é que, nestes tempos difíceis, o melhor é acalentarmos recordações e valores do nosso passado infantil. Pensem na televisão como um grande apagador, a fazer desaparecer as verdadeiras recordações do passado, a realidade do que as coisas foram efectivamente […] A caixinha sobrepôs uma visão contorcida e distorcida da realidade através do apelo, não à mente, mas sim às emoções infantis. A ideia de rescrever a história, recorrendo aos meios de comunicação social, não é nova. Está é, no entanto, a primeira vez que tal é feito, enquanto as pessoas que viveram essa história estão bem vivas.”

O Munda da Publicidade

A televisão é o meio mais eficaz para nos lavar o cérebro, mas não é o único. Madison Square, em Nova Iorque, é o epicentro da publicidade e também tem contribuído para isso. Se continuarmos nesta linha de pensamentos, veremos que o “culto da celebridade” também representa um papel na disseminação do que Tavistock quer que nós acreditemos. Nos anos 20, Edward Bernays pegou na propaganda de tempo de paz e deu-lhe um novo nome: relações públicas. As Relações Públicas criaram a sociedade do consumo, que foi anunciada como a cereja a decorar o bolo do capitalismo de mercado livre, com a introdução de aprovações e lançamentos de produtos por celebridades. As RP consolidaram as teorias da psicologia de massas e os esquemas de persuasão empresarial e politica sobre as crenças do cidadão médio, na medida em que apelavam “acima do pensamento”, sendo directamente dirigidas às emoções e aos instintos.

“Há mais de 55 anos que as pessoas vêem anúncios que, através da utilização astuta de música e imagens, têm procurado manipular impulsos subconscientes e instintos, para venderem produtos. A maior parte demora menos de um minuto, mas contém imensas imagens e muito frequentemente uma música que fica no ouvido.” A fórmula é simples. Quem for jovem e viver inserido na cultura ocidental, tem a publicidade a satisfazer-lhe as necessidades de informação acerca de como crescer e viver a vida. Se analisarmos o assunto, não há virtualmente qualquer diferença entre o apelo emocional e nada racional para se ver uma série na televisão e ver anúncios na televisão. Ambos vendem um ponto de vista. Não há sermões. Não há aulas. Não há maneira certa e a maneira errada. Há apenas a expressão, por meio das experiencias de vida e de outros, do que a vida é, ou pode ser, para os públicos demográficos a quem são dirigidos. É muito pós-moderno e muito enganador. A realidade funciona, porque pode ser exaltada como tal, é manipulada.

Um ponto de vista pode facilmente ser o da nostalgia. Esta, tal como a vemos em Cuéntame Cómo Pasó, é interessante, pois é como se fosse um passado comum, que une as pessoas dum determinado tempo ou geração. Quando usada correctamente, a nostalgia também pode dar muito jeito para manipular pessoas. Os publicitários descobriram isso há muito tempo, o que pode ser uma razão para certas modas e tendências das últimas três décadas terem regressado nestes últimos dez anos.

A partir do que aparece hoje em dia na publicidade, posso concluir que existem pessoas criativas, cheias de recursos e falta de escrúpulos, que estão permanentemente a tentar descobrir aquilo a que os outros atribuem mais valor – e depois procuram um modo de ligar o seu produto às “estrelas”.

Dada a sua própria natureza, nenhum produto pode realmente contribuir para que atinjamos os ideias visualmente prometidos, como harmonia familiar, poder pessoal, auto-estima, sociabilidade, segurança, atracção sexual e uma orientação nítida num mundo cada vez mais confuso.

A publicidade é um processo para fabricar encanto. O facto de provocar inveja é o que constitui esse encanto. A publicidade tem pois a ver com a felicidade solitária que provem de se ser invejado por outros. Porém, a inveja tem um lado sombrio, que acabou por se perder no pensamento do século XX. Desde os tempos medievais, a inveja foi considerada a expressão mais adequada para identificar as causas do sofrimento humano. Tal como o desespero, a inveja surge da separação entre a pessoa e o objecto de desejo, combinada com uma sensação de impotência para obter o que é desejado. Na inveja, o ímpeto de estender a mão torna-se um ímpeto de destruir.

E todavia, no fundo desse ódio, encontra-se a notável profundidade e simplicidade do anseio humano – um anseio de vida, de ideias, de valores, de vitalidade e de amor. Um anseio de ligação. Um anseio de beleza. É um anseio que se projecta de forma optimista através de símbolos, imagens e conceitos idealizados.

A publicidade é a versão da mitologia na cultura do consumo. Não existe nenhuma sociedade sem alguma forma de mito. Não é pois de estranhar que uma sociedade baseada na economia da produção em massa, e do consumo em massa, crie o seu próprio mito sob forma de um anúncio. Tal como o mito, este influencia todos os aspectos da vida e, enquanto mito, utiliza o fabuloso como meio para apelar ao mundano.

Porque haveriam os autores de anúncios de querer evocar ódio e inveja? Num livro que compara Piaget e Lévi-Strauss, Howard Gardner escreveu: “Os mitos são projectados para tratarem os problemas da existência humana que parecem insolúveis; encarnam e expressam tais dilemas de uma forma estruturada com coesão, servindo assim para os tornar inteligíveis. Por meio da sua similaridade estrutural com situações do “mundo real”, os mitos estabelecem um ponto de equilíbrio onde os homens podem atacar os componentes cruciais do problema. Assim, um mito é ao mesmo tempo intelectualmente satisfatório e socialmente unificador.”

Anúncios impregnados de imagens carregadas de valores, sem qualquer relação com o produto, podem estar a alienar-nos dos valores que efectivamente exploram, confundindo-nos sobre como os atingir, e lançando as bases para o desespero, o ressentimento e a apatia.

Como os produtos não nos proporcionam o tipo de recompensa psíquica prometido pela imagética da publicidade, começamos a duvidar que alguma coisa o proporcione. Se seguirmos esta dúvida, acabamos por entrar num estado depressivo, no qual vemos um buraco negro rodear quase todos os produtos, qual negativo fantasmagórico da sua antiga luminosidade – o buraco negro da promessa não cumprida.

E nesse buraco negro, criado pela exploração publicitária de tantas imagens ideais, entra qualquer religião que prometa abrir um caminho entre o ciclo de idolatria, e ligar—os ao único grande ideal que transcende todos os outros: Deus, imortalidade, consciência cósmica, iluminação, mundo espiritual, o eu profundo ou seja qual for o nome que “Lhe” dermos. Usando técnicas que são fundamentalmente religiosas, a publicidade publicita inadvertidamente a religião.

Considerada em termos de religião, a publicidade encoraja as pessoas a acreditarem que os ideais mais vivos e apelativos da nossa cultura podem ser atingidos com facilidade, desde que encontremos o produto certo ou, se preferirmos, o salvador certo, filosofia, igreja, guru, culto ou até drogas que potenciem o desempenho.

Esta é uma possibilidade perturbadora. Contudo, há outra possibilidade ainda mais perturbadora. Estaremos nós a produzir uma geração que não confiará em ideal nenhum, porque as apresentações mais poderosas, convincentes e forçosas desses ideais ocorrem em anúncios televisivos – onde os ideais são prostituídos ao serviço das vendas? Seremos responsáveis pela criação da mais desiludida geração na História da humanidade? Uma geração que terá dificuldade em não odiar a beleza, do tipo usado na publicidade para a manipular e desiludir? Pior ainda, odiará também ser delicadamente subjugada pela verdadeira beleza quando a encontrar no mundo? Conseguirão as pessoas continuar a ter esperança, a ter fé, a estabelecer objectivos e a acreditar em algo para além delas?

Ironicamente, a maior parte dos anúncios não é sexualmente óbvia, pelo contrário, para uma narrativa sexual, usa-se a sedução, o engano e a paixão, que são retratados como meios aceitáveis para se atingir a individualidade.

Inseparáveis da roupa que vestimos e dos produtos que usamos, estão as nossas ideias e fantasias quanto aos nossos corpos. Os produtos de beleza apresentam os rituais de beleza como ocasiões transcendentes, e os produtos de dieta apelam à imagética religiosa de culpa e salvação. O próprio corpo é manipulado ansiosamente e sistematicamente trabalhado, até a consumidora tornar o seu num anúncio de si própria; um signo, complicado, para ser interpretado e admirado.

A beleza nem sempre pareceu tão complicada. Desde o tempo dos gregos até ao século XX, filósofos e poetas ligavam beleza a ideias tão gloriosas como verdade e harmonia. Para Dante, esses ideais eram os faróis que iluminavam a nossa existência. Basta recordar a conclusão da “Ode a Uma Urna Grega”, de Keats:

Beleza e verdade são uma, são tudo/ O que sabeis, é tudo o que precisais saber.

A capa de revista, ou a banda desenhada, em que a sedução feminina e a clareza da narrativa absorveram todos os impulsos criadores do artista, são desprezíveis, não devido à sua insistência na atracção sexual ou na sua concentração no anedótico – Ticiano e Boucher podiam rivalizar com eles na primeira, Giotto e Goya na última – , mas sim devido à sua falta de enriquecimento a partir do interior. São vazias, tal como o trabalho dos artistas abstractos, razão pela qual são pequenos e frequentemente insignificantes.

O êxito da publicidade moderna reflecte uma cultura que escolheu, ela própria, a ilusão, em detrimento da realidade.

As imagens super normais de perfeição, apresentadas nos meios de comunicação social, merecem que pensemos nelas, porque qualquer tipo de imagem “guia” tem uma natureza dupla. Por um lado, as imagens idealizadas podem elevar e orientar as pessoas. Na procura do inatingível, as pessoas atingem grandeza. O ideal que nos eleva pode ser amar como Jesus Cristo, manifestar a compaixão de Buda, ou mostrar a sabedoria de Confúcio.

No mundo ocidental de “igualdade de oportunidades”, mesmo que a pessoa tente mas não consiga atingir tais ideais, tem o direito a sentir-se enobrecida pelo esforço. A nossa cultura do século XXI é guiada por ideais inatingíveis: liberdade, igualdade e felicidade. O nobre fracasso na demanda de grandes ideais está no centro do nosso espirito empreendedor, romântico, quixotesco. Para a maior parte dos ocidentais dos tempos modernos, o hiper-real tem sido muitas vezes apenas um modo de olhar para um futuro, que excedeu os sonhos mais loucos da ficção científica.

Porém, as imagens idealizadas só nos elevam quando há uma maneira de a pessoa se mover na direcção dos valores implícitos nelas. Se nada houver que nos ligue à imagem, e o ideal parecer portanto inatingível, sentimo-nos desligados dele, e este passa a promover NÃO o encontro entre o público e o ideal, mas precisamente a sua separação.

A publicidade promove o desespero, primeiro porque nos rodeia de imagens duma perfeição inatingível. Em segundo lugar, promove-o deixando implícito que o produto fornecerá o ideal – quando não o pode fazer. As pessoas não precisam de um automóvel a cada três anos, a televisão de plasma não enriquece a experiencia de vida, e a roupa maior ou menor não contribui em nada para expandir o nosso conhecimento, nem incrementa a nossa capacidade de amar. Como disse em crítico da publicidade: “A tristeza trai o idílio (da publicidade como mundo mais-que-perfeito).”

O desespero é um sucedâneo natural da experiencia, que advém da forma como a publicidade nos promete fornecer os valores implícitos nas suas imagens hipernormais.

Como Vladimir Nabakov observou, com perspicácia: “No nosso gosto pelo útil, e pelos bens materiais da vida, tornamo-nos vítimas fáceis do negócio da publicidade. O rico filitinismo que emana dos anúncios deve-se, não ao facto de exagerarem ou inventarem a glória deste ou daquele artigo útil, mas sim por sugerirem que o auge da felicidade humana pode ser comprado e que a sua compra enobrece, de algum modo, o comprador. É claro que a parte divertida não está na realidade de vivermos num mundo em que nada permanece espiritual, a não ser os sorrisos extasiados de pessoas a servir cereais celestiais, mas sim no facto de ser uma espécie de mundo-satélite na penumbra, e em cuja existência real nem os vendedores nem os compradores acreditam verdadeiramente.”

A publicidade é apenas um mito moderno, com a mesma função que a mitologia das culturas antigas. Se a publicidade é então um sistema mitológico, é sem duvida um mito que falhou quanto à sua responsabilidade primária de dar identidade pessoal e significado espiritual àqueles a quem é dirigido.

Harleu Schlanger escreveu: “Estar imenso em cultura clássica desenvolve o entendimento da História universal, das ideias por detrás das batalhas, preparando cada individuo para agir como líder, no seu próprio tempo. E no centro da cultura clássica verdadeiramente grandiosa, como numa tragédia, o autor demonstra que um destino trágico não é inevitável, havendo antes uma via de aço através da qual a tragédia pode ser evitada.”

Como podemos ver no caso da famosa irmandade da Vida em Comum o estudante que beneficia duma abordagem clássica à educação dos processos cognitivos é o estudante que se depara, no pior dos casos, com uma oportunidade decente de se converter num génio original e qualificado.

Esta capacidade de cognição é o que distingue o homem dos animais. Foram as descobertas realizadas por mentes individuais, e transmitidas de umas para as outras, que permitiram à espécie humana aumentar o potencial e a densidade populacional da humanidade. Do nível de um simples símio superior e de poucos milhões de indivíduos de má qualidade, para mais de trezentos milhões no século XV, e quase sete mil milhões na actualidade.

Se a história for ensinada do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo de culturas inteiras, e tendo em conta a importância de cada individuo dentro de cada cultura, também merece o estatuto de uma verdadeira ciência. É através das ideias válidas que o Homem é superior ao macaco, e que a maioria da humanidade se eleva acima da condição bárbara e feudal de “gado humano”. A História, nesse sentido, é a história das ideias, da sua produção, circulação e realização.

Porém, o primeiro pré-requisito para compreendermos o lugar que nos compete no Universo começa consigo, leitor. Vamos lá, desligue a televisão e, mais importante que tudo, mantenha-a desligada, principalmente depois de ler a quantidade de provas que lhe apresentamos das acções perversas e das intenções diabólicas de Tavistock.

                                                                                                                         

 

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