Excertos do capitulo 5 do livro “O Instituto Tavistock” de Daniel Estulin (págs. 158-161)

A Língua Dos Idiotas

Já alguma vez prestou atenção ao nível da linguagem usada nos noticiários? Não prestou, pois não? Na realidade, todos os noticiários do mundo ocidental seguem o mesmo padrão linguístico: verbos simples, carradas de substantivos e pouquíssimas frases extensas. Frases breves, vocabulário simples. Por outras palavras: “conversa de chacha”. O locutor diz: “O presidente não se candidata à reeleição; os pormenores dentro de meia hora.” Também isto é deliberado. Através da linguagem, da sua beleza e complexidade, “o homem comunica as ideias e princípios da sua cultura, à geração seguinte.” A linguagem da televisão é aristotélica, limitando-se simplesmente a nomear objectos, como num universo fixo ou finito: Homem, cão, criminoso, presidente, carro, bomba, economia, mau, bom. “Não está a decorrer nenhum pensamento criador, nem há qualquer tentativa de ocupar a mente, apenas interessa imprimir uma imagem no cérebro da pessoa.” É a isto que se chama lavagem ao cérebro. No entanto, a lavagem ao cérebro através da televisão não surgiu de um momento para o outro; é antes um efeito cumulativo que sucede com o passar de um longo período de tempo, conseguindo alterar lentamente o paradigma da nossa sociedade. Não acredita em mim? Olhe em volta e pense nas gerações anteriores.

A linguagem dos noticiários televisivos tem a sua origem num trabalho linguístico realizado durante a Segunda Guerra Mundial, que faz parte da obra de H.G Wells, Ultimate Revolution: the elimination of all national languages in favour of “Basic English”. O inglês seria a futura língua mundial, com um vocabulário de apenas 850 palavras. Este conceito degenerado foi da autoria do linguista britânico, C.K Ogden, que declarava que a maioria das pessoas não compreendia a língua inglesa, na sua actual forma complicada. Algumas pessoas nos níveis mais altos da oligarquia britânica, incluindo Churchill, viram o potencial “valor” de lavagem ao cérebro no que Ogden fizera. Usando linguagem “básica”, associada à comunicação social, uma mensagem simples podia ser transmitida a um grande número de pessoas, sem o risco de que pensamentos complicados se intrometessem no assunto.

No mundo futuro de Wells: “O inglês mais falado e escrito hoje em dia é muito diferente do inglês de Shakespeare, Addison, Bunyan ou Shaw. Descartou os últimos vestígios de elaborações tão arcaicas como o modo conjuntivo.”

Porém, as capacidades humanas de formulação de hipóteses, e a nossa razão criadora, tornam-se um impulsionador de melhorias na ordem da natureza, não podendo portanto ser encerrados num vocabulário de 850 palavras. Por meio das línguas, os Estados-nação obtiveram significado. E é através deles que procuramos a Verdade. Na Grécia Antiga, no diálogo de Platão, Menon, Sócrates faz sobressair o génio inato do pequeno escravo, ao encorajá-lo a resolver o problema de como duplicar o quadrado. Prova assim que a escravatura é injusta, demonstrando a natureza criadora da espécie humana. O opositor pró-imperial de Platão, Aristóteles, presumindo que o homem não tem alma, declarou que a natureza destinou alguns para escravos, e fez de outros seus senhores.

Tavistock sabe que as ideias são mais poderosas do que armas, pistolas, frotas e bombas. Para assegurar a aceitação das suas ideias imperialistas, Tavistock procura controlar a maneira como as pessoas pensam, principalmente na área da ciência, área em que os potenciais humanos cheios de hipóteses e raciocínio criador se tornam uma verdadeira força para melhorar a ordem da natureza. Se se conseguir controlar a maneira como as pessoas pensam, consegue-se controlar o modo como reagem aos acontecimentos, quaisquer que estes sejam. Este processo chama-se “alteração de paradigma”; uma subversão do conjunto existente de pressupostos acerca da sociedade.

Historicamente, a luta para preservar a língua, como pedra angular das repúblicas correspondentes a Estados-nação, remonta ao dramaturgo italiano Dante Alighieri.

É importante salientar o facto de as pessoas do Renascimento italiano falarem uma língua que não existia duzentos anos antes, mas que foi inventada pelo poeta Dante Alighieri. Este, que viveu desde 1250 até aos primeiros anos do século XIV, esforçou-se por inventar uma língua que pudesse ressuscitar as ideias mais profundas do pensamento humano, mesmo que a sua própria época acabasse por cometer suicídio. Este suicídio ocorreu efectivamente por causa do colapso bancário, provocado pelas famílias Bardi e Peruzzi.

Se Dante não tivesse criado a língua italiana, que formulou a partir de mais de mil dialectos locais, o Renascimento não teria podido ocorrer. A Divina Comédia, de Dante, aperfeiçoou a forma da poesia cantada. O seu seguidor Francesco Petrarca procurou fazer avançar ainda mais a língua, com a invenção do soneto. Porém, o amigo de Petrarca, Boccaccio, foi encarregado por ele dum projecto diferente, chamado Decameron. Este foi escrito para evitar que toda a sociedade italiana se afundasse no pessimismo cultural e se finasse durante a Peste Negra da década de 40, do século XIV, e anos seguintes. Consiste num conjunto de contos satíricos, muitos deles bastante escabrosos, que narram a tragédia do suicídio da Europa, de forma a fazer as pessoas rirem de si próprias e repetirem os contos, mas de preferência não o comportamento que as destruirá. E assim aprenderiam o italiano de Dante.

Geoffrey Chaucer assistiu a uma conferência de Boccaccio sobre Dante em 1375 e ficou com a ideia de fazer o mesmo em inglês. Assim nasceram os Contos da Cantuária, que narram histórias hilariantes contadas durante uma peregrinação religiosa à Igreja de Cantuária. Os ingleses, sendo tão licenciosos como os italianos, também repetiram as histórias e assim aprenderam a falar inglês. Mais tarde, Shakespeare importou o soneto Petrarca para inglês. O inglês literato é em grande medida italiano; uma espécie de neto do italiano de Dante.

Posteriormente, a figura do humanista cristão, que foi Erasmo de Roterdão, inspirou o seu aluno François Rabelais a fazer pela França o que fora feito por Boccaccio pela Itália e por Chaucer pelo inglês. Assim nasceu a espantosa personagem Gargantua e, com ela, a língua francesa. E, em Espanha, temos o grande exemplo de D.Quixote.

Deste modo, as línguas, criadas por poetas, elevaram as populações que tinham sido dominadas pela ignorância e, portanto, facilmente governadas. Na verdade, as línguas criaram as nações, não foi o contrário.

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