Excertos do capitulo 5 do livro “O Instituto Tavistock” de Daniel Estulin (págs. 153-158)

Sondagens Por Números

No início do século XX, as palavras “propaganda” e “guerra” tornaram-se sinonimas uma da outra. Não foi por acaso. Fez tudo parte do esforço para minar o legado judeu-cristão por meio da “abolição da cultura”. Dois homens mostraram como é possível ligar os conceitos de propaganda e guerra numa única técnica.

Um deles foi Walter Lippmann. Sendo provavelmente o mais influente dos comentadores políticos, Lippmann passou a Primeira Guerra Mundial no quartel-general britânico para a guerra psicológica e a propaganda, em Wellington House, nos arredores de Londres. Foi Lippmann que, em 1922, nos forneceu o conceito de “estereótipo”, que é basicamente uma continuação do conceito de arquétipo de Jung. Os estereótipos podem ser criados, e manipulados, pelos gurus da comunicação em massa e da guerra psicológica. A ideia não é fazer com que o alvo pense com muita clareza ou muita profundidade acerca das imagens recebidas, mas antes fazer com que reaja, à maneira pavloviana, ao estímulo que proporcionam.

O outro foi Edward Bernays, sobrinho de Freud e um dos criadores das técnicas de manipulação da opinião pública. Nas palavras do próprio Bernays: “Foi, é claro, o espantoso êxito durante a [Primeira] guerra [Mundial] que abriu os olhos dos poucos inteligentes da altura para as possibilidades de arregimentar a mente do público… somos governados, as nossas mentes são moldadas, os nossos gostos formados e as nossas ideias são-nos sugeridas, em grande parte por homens dos quais nunca ouvimos falar. Seja qual for a atitude pela qual se opte em relação a esta condição, permanece o facto de que, em quase todos os actos das nossas vidas quotidianas, quer na esfera da política quer nos negócios, na nossa conduta social ou no nosso pensamento ético, somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas, uma fracção insignificante dos nossos cento e vinte milhões (de cidadãos dos EUA na época), que entendem os processos mentais e os padrões sociais das massas. São essas pessoas que puxam os cordelinhos, que controlam as mentes do público, e que dominam velhas forças sociais e inventam novos meios de unir e guiar o mundo.”

Durante a Primeira Guerra Mundial, Bernays, que era ainda muito jovem, serviu no U.S Commitee on Public Information (CPI), aparelho americano de propaganda com nome engenhoso, mobilizado pelo governo dos EUA em 1917 para embalar, anunciar e vender a guerra à população desprevenida, como a que “tornaria o mundo seguro para a democracia”. “Apesar das centenas de milhares de jovens britânicos a serem chacinados nos campos de batalha de França, não houve virtualmente qualquer oposição à guerra sangrenta. Registos da época mostram que, em 1917, imediatamente antes de os Estados Unidos entrarem na Guerra, 94% do operariado britânico, que sofria as agruras da guerra não fazia a mínima ideia daquilo porque lutava, para além da imagem criada pelos manipuladores dos meios de comunicação social, que afirmavam que os alemães eram uma raça horrível, determinada em destruir o seu monarca e o seu país, e que tinha de ser varrida da face da terra.” Desde então, em todas as guerras, incluindo a actual “guerra ao terror”, têm sido utilizadas técnicas de propaganda idênticas, na comunicação em massa.

Deste modo, a irracionalidade foi elevada a consciência pública. Os manipuladores jogaram então com isto para minar e distrair a nossa capacidade de apreensão da realidade e, quanto mais complexos se tornaram os problemas da sociedade industrial moderna, mais fácil se tornou arranjar distracções cada vez maiores, ao ponto de acabarmos por ver as opiniões absolutamente inconsequentes das multidões, criadas por manipuladores exímios, assumirem a posição de facto científico.

Hoje em dia, as sondagens da opinião pública estão completamente integradas na nossa sociedade, tal como os noticiários televisivos. Um “inquérito científico” ao que se diz que as pessoas pensam acerca de qualquer assunto pode ser produzido em menos de vinte e quatro horas. A maior parte das sondagens anunciadas pelos principais grupos de comunicação social do mundo, como a CBS-NBC-ABC-CNN-Fox, o New York Times, o Washington Post, a revista Time, a Newsweek, o Finantial Times e o Wall Street Journal, é de facto coordenada pelo National Opinion Research Centre, onde, por muito que isso espante a maioria das pessoas, um perfil psicológico foi desenvolvido para cada nação da Terra.

Claro que a ideia de “opinião pública” não é nova. Há mais de dois milénios, já Platão se manifestava contra ela na sua Republica. Alexis de Tocqueville escreveu extensamente sobre a sua influência na América nos princípios do século XIX. Todavia, antes do século XX, ninguém se tinha lembrado de medir a opinião pública e, antes da década de 30 desse século, ninguém se tinha lembrado de usar essas medições para a tomada de decisões.

É útil fazermos uma pausa e reflectirmos sobre este conceito. “A crença de que a opinião pública pode ser determinante da verdade é filosoficamente louca. Exclui a ideia da mente racional individual. Cada mente individual contém a centelha divina da razão, sendo assim capaz de descobertas científicas, e de compreender as descobertas de outros. Portanto, a mente individual é uma das poucas coisas das quais não pode ser “estabelecida uma média”. Repare: no momento da descoberta criativa, é possível, se não mesmo provável, que o cientista que a faz seja a única pessoa a ter aquela opinião sobre a natureza, enquanto todas as outras pessoas têm uma opinião diferente, ou não têm qualquer opinião. É fácil de imaginar um “inquérito conduzido cientificamente” sobre o modelo de Kepler do sistema solar teria revelado, pouco depois da publicação da Harmonia do Mundo: 2% a favor, 48% contra, 50% sem opinião.”

Apesar de ser impossível provar a sua tese central acerca de “tipos psicanalíticos”, a metodologia de interpretação de sondagens da Escola de Frankfurt tornou-se dominante nas ciências sociais, e assim permanece ainda hoje. De facto, a adopção dessas novas técnicas, supostamente cientificas, nos anos 30 do século XX, originou uma explosão do uso de inquéritos à opinião pública, muitos deles financiados por Madision Avenue. Isso porque as opiniões podem ser facilmente contadas. Pode perguntar-se a um grupo de pessoas o que “sente” sobre qualquer coisa, ou se pensa que uma qualquer afirmação é verdadeira. Soma-se os “sins” e subtrai-se os “nãos”, com o número maior a tornar-se o consenso, que aparentemente representa a opinião da “maioria”. Assim, a afirmação de que “a América está a dizer NÃO às drogas” é um consenso fabricado pelos autores da sondagem para a elite financeira, que é de facto o maior impulsionador do consumo de droga do mundo, como tenho repetidamente demonstrado em todos os meus livros. Porém, por mais pessoas que concordem ou discordem em relação a qualquer coisa, isso não torna essa coisa verdadeira. Depois de estudarem os números das sondagens americanas, Emery e Trist chegaram à conclusão de que “as pessoas agem de acordo com o consenso”. As massas da plebe são tão dirigidas e influenciadas pelas sondagens que “não se atreveriam a quebrar este contrato social: têm de fazer o que outros acham que elas devem fazer; agir de modo diferente causaria sofrimento psicológico”. Concluem que as sondagens “dão significado às suas vidas”.

Depois da Segunda Guerra Mundial, Paul Lazarsfeld, director do Bureau of Applied Social Research da Universidade de Colúmbia e pioneiro notável no uso de sondagens para psicanalisar o comportamento eleitoral dos americanos, esteve, na eleição presidencial de 1952, e juntamente com as agências de publicidade de Madison Avenue, no comando da campanha de Dwight Eisenhower, utilizando o trabalho desenvolvido por Lazarsfeld. A eleição de 1952 foi também a primeira sob influência da televisão, a qual, tal como Adorno previra oito anos antes, adquiriu uma influência incrível em pouquíssimo tempo. Batten, Barton, Durstine & Osborne – a notória agência de publicidade BBD&O – projectou as acções de campanha de Ike inteiramente para as câmaras de televisão, e com tanto cuidado como os comícios de Hitler em Nuremberga. Surgiram anúncios de um minuto, que foram pioneiros em corresponder às necessidades dos eleitores, determinadas pelas sondagens.

Esta bola de neve ainda não deixou de rolar desde então. Todo o desenvolvimento da televisão e da publicidade, nos anos 50 e 60 do século XX, teve como protagonistas homens e mulheres treinados nas técnicas de alienação das massas, da Escola de Frankfurt. Frank Stanton foi catapultado da Radio Project para o lugar do mais importante líder da televisão moderna.

Toda a ideia por detrás deste tipo de condicionamento social consiste em descobrir até que ponto o público corresponde às directivas politicas emanadas das elites. “Se se quiser que as pessoas acreditem em qualquer coisa, então, tudo o que se tem de fazer é organizar uma sondagem que afirme que assim é e torna-la pública, de preferência na televisão.” O autor desta frase é Hal Becker, do Future Group.

Somos chamados “grupos proporcionais-alvo” e o que é medido pelos autores das sondagens é quanta resistência é gerada ao que aparece no noticiário da noite. Os resultados destas sondagens cuidadosamente arquitectadas, dados a conhecer à população pelos meios de comunicação social, proporcionam a base para moldar uma opinião. Faz tudo parte do processo de formação da opinião, criado em Tavistock e descrito num dos seus manuais como “a mensagem a chegar aos órgãos sensitivos das pessoas a influenciar”.

Foi este vasto dispositivo que tornou a maioria dos americanos, que nem sequer ouvira falar em Saddam Hussein e sabia vagamente que o Iraque era um país algures no Próximo Oriente, num povo a clamar pelo seu sangue e pelo extermínio do Iraque como nação.

Como pôde isso acontecer? Pergunta-se. Porque as imagens de Saddam, o inimigo número um do mundo, se tornaram a imagem do mal graças ao poder da televisão. Tal como Hitler e Estaline representavam visualmente o mal. Que tal um pequeno teste? Quem, na sua opinião, é o inimigo hoje em dia? Khadafi? Hugo Chavez? Putin? Ou o nosso próximo? Tornamo-nos o inimigo, a fonte da destruição da sociedade. Se acreditarmos no maléfico Freud, “nem todos os homens merecem amor”. O sinistro movimento ambientalista, com a sua visão anti-humana do homem, afirma explicitamente este facto na sua propaganda degenerada: “Salvem os animaizinhos. Matem as pessoas.”

Mesmo assim parece que não percebemos. Porquê?

Porque a metodologia das sondagens não se alterou desde os seus primórdios. Questões complicadas são reduzidas a simples conjuntos de opções. “Saddam Hussein é mau. Concorda?” Mas em que se baseia essa afirmação? Na visão de quem? Como se define a maldade? Na perspectiva da população iraquiana, as tropas americanas invasoras são más e Saddam é bom. Estes tipos de perguntas enquadram-se directamente no perfil da Europa Ocidental e da América do Norte: “Mantém isso simples, estúpido.”

Estamos a falar da psicologia de massas freudiana e do seu apelo a comportamentos infantis, semelhantes aos dos animais, e ao sentimentalismo, cujo objectivo é dar a volta à capacidade de raciocínio criativo de cada individuo, que é guiado por juízos morais e pela eterna procura da Verdade universal.

Se virmos bem, quando se trata de televisão, a verdade nunca esteve de facto em questão. A televisão não tem nada a ver com “verdade”, tem a ver com a criação de uma realidade. Não interessa nada se as imagens vistas na televisão são reais ou copiadas e coladas, de acontecimentos passados, porque as pessoas acreditam que são reais, imediatas e portanto verdadeiras. Por exemplo, quando se deu o tremor de terra de Março de 2010 no Japão, a comunicação social mostrou imagens de prateleiras de supermercado vazias, afirmando descaradamente que o Japão estava a sofrer o pior racionamento de água desde a Segunda Guerra Mundial. Contudo, as imagens de prateleiras vazias eram tiradas de fotografias de arquivo e pouco tinham a ver com o sismo ou com a falta de água engarrafada. Deste modo, a realidade, tal como é transmitida pelos noticiários da noite, “eclipsa” a Verdade todas as noites. Emery e Trist indicaram que “quanto mais uma pessoa vê televisão, menos entende, menos aceita, mais se torna dissociada do seu próprio processo de pensamento. […] A televisão é muito mais mágica do que qualquer outro produto de consumo, pois torna as coisas normais; embala e homogeneíza aspectos fragmentários da realidade. Constrói uma realidade aceitável (mito) a partir de ingredientes maioritariamente inaceitáveis. Confrontar o mito corresponderia a confessar-se ineficaz, isolado e incapaz… Elas (as imagens televisivas) tornam-se e são a verdade.”

Desta maneira, as histórias da noite, que aparecem no seu noticiário televisivo preferido, servem para reforçar a sua opinião acerca do que o mundo que o rodeia parece. E qual é essa opinião? Que vivemos num mundo de violência e perversão inenarráveis; que os seres humanos são criaturas em degradação e violentas, que matam, violam, destroem e espalham o ódio por onde quer que vão, em nome de qualquer –ismo que por acaso esteja em voga no momento.

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