O triplo jogo dos Neo-conservadores

Por Laurent Guyénot

 

Para bem atingir os seus sonhos megalómanos de domínio mundial, os neo- conservadores desenvolveram um triplo discurso, como mostra Laurent Guyénot neste ensaio: uma filosofia cínica da política elaborada pelo seu mestre pensador, Léo Strauss, para consumo interno; uma análise fria dos interesses estratégicos israelitas quando eles aconselham os dirigentes de Telavive; e uns alertas alarmistas face a perigos imaginários para a opinião pública dos E.U.

neo-conservadorismo, que é geralmente percebido como uma direita republicana extrema, é na realidade um movimento intelectual nascido no fim dos anos 1960 no seio da redacção da revista mensalCommentary, o orgão de imprensa do American Jewish Committee-(Comité Judaico Americano,NdT)-que substituiu oContemporary Jewish Record em 1945. The Forward, o mais antigo quotidiano judeu americano, escreve num artigo de 2006: «Se há um movimento intelectual na América do qual os judeus podem reivindicar a invenção, é realmente o neo-conservadorismo. Este movimento horrorizará sem dúvida a maior parte dos judeus americanos, maioritariamente liberais(o liberal americano corresponde, grosso modo, ao sentido de Esquerdista europeu, mais do que esquerda,NdT) . E portanto é um facto que enquanto filosofia política, o neo-conservadorismo nasceu entre os filhos dos imigrantes judeus e que ele é actualmente, o domínio particular dos netos destes imigrantes». O apologista do neo-conservadorismo Murray Friedman explica isto pelo sentido de beneficência inerente ao judaísmo, « a ideia que os judeus foram colocados sobre a terra para fazer um mundo melhor, talvez mesmo mais sagrado». 

Do mesmo modo que se fala da «direita cristã» como uma força política nos Estados- Unidos, poderá, pois, falar-se dos neo-conservadores como representando a «direita judia». No entanto, esta caracterização é problemática por três razões.

- Primeiro, os neo-conservadores não passam de um pequeno clã, embora tenham adquirido uma força considerável nos seio das organizações representativas da comunidade judia, nomeadamente a Conference of Presidents of Major American Jewish Organizations(Conferência de Presidentes das Principais Organizações Judaicas Americanas,NdT) . O jornalista Thomas Friedman do New York Times contabiliza vinte-e-cinco, a propósito das quais ele escreveu em 2003: «se os tivésseis exilado numa ilha deserta há um ano e meio atrás, a guerra do Iraque não teria acontecido». [3Os neo-conservadores compensam o seu pequeno número pela multiplicação dos seusCommittees, Projects e outros think tanks redundantes, que lhes conferem uma espécie de ubiquidade, mas a sua filosofia permanece o apanágio de um pequeno número.

- Em segundo lugar, os neo-conservadores da primeira geração vêm todos maioritariamente da esquerda, e alguns até da extrema esquerda trotskista como Irving Kristol, intelectual fétiche do neo-conservadorismo e um dos principais redactores da Commentary. Foi no final dos anos 60 que a redacção daCommentary começa a sua viragem à direita rompendo com aNew Left pacifista – (Nova Esquerda), incarnada por George McGovern. Norman Podhoretz, o redactor em chefe daCommentary de 1960 até à sua reforma em 1995, foi um militante anti-Vietname até 1967, para tornar-se nos anos 70 um fervoroso advogado do aumento do orçamento da Defesa, levando a redacção na sua esteira. Nos anos 1980, ele opõe-se à política de “detente” no seu livro The Present Danger (O Perigo Actual,NdT). Ele manifesta-se pela invasão do Iraque nos anos 90, e de novo no início dos anos 2000. Em 2007, enquanto o seu filho John Podhoretz toma o testemunho como redactor em chefe da Commentary, ele clama pela urgência de um ataque americano contra o Irão.

- Em terceiro lugar, contrariamente aos cristãos evangélicos com os quais eles se associam muitas vezes, os neo-conservadores não apregoam o seu judaísmo. Tenham ou não sido marxistas, eles são maioritariamente não-religiosos. A filosofia de que se reivindicam expressamente os mais influentes de entre eles (Norman Podhoretz e o seu filho John, Irving Kristol e o seu filho William, Donald Kagan e o seu filho Robert, Paul Wolfowitz, Abram Shulsky) é a de Leo Strauss, de modo que os neo-conservadores se definiram eles-mesmos, por vezes, como «straussianos». Strauss, nascido de uma família de judeus ortodoxos alemães, foi aluno e colaborador de Carl Schmitt, politólogo especialista de Thomas Hobbes, admirador de Mussolini, teórico de uma «teologia política» na qual o Estado se apropria dos atributos de Deus, e jurista renomado do Terceiro Reich. Após o incêndio do Reichstag em fevereiro de 1933, foi Schmitt que forneceu o quadro jurídico justificando a suspensão dos direitos e a instalação da ditadura. Foi também Schmitt que, em 1934, obteve pessoalmente da Rockefeller Foundation uma bolsa permitindo a Leo Strauss sair da Alemanha afim de estudar Thomas Hobbes em Londres, depois Paris, para por fim ensinar em Chicago. Esta filiação não é contestada pelos straussianos.

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Leo Strauss (1899-1973)

O pensamento de Leo Strauss é de análise delicada, porque ele exprime-se menos vezes em nome próprio e mas muito mais como comentador de autores clássicos. Além disso, tal como os seus discípulos Allan Bloom ou Samuel Huntington, Strauss tem o cuidado de enroupar as suas ideias mais radicais em declarações de princípio humanistas. Seja como for três princípios fundamentais podem facilmente ser extraídos da sua filosofia política, pouco diferente da de Schmitt:

- Primeiro, as nações tiram a sua força dos seus mitos, que são indispensáveis para o governo dos povos.

- Segundo, os mitos nacionais não precisam ter relação
necessária com a realidade histórica: Estes são construções culturais que o Estado tem por dever de difundir.

- Terceiro, para ser eficaz, todo o mito nacional deve ser fundado sobre uma distinção clara entre o bem e o mal, porque ele tira a sua força aglutinadora do ódio a um inimigo da nação. Como o admitem Abram Shulsky e Gary Schmitt, para Strauss, «o logro é a norma em política»  — regra que eles aplicaram ao fabricar, no seio do Office of Special Plans (OSP)- (sigla para Gabinete de Planos Especiais, NdT), a mentira das armas de destruição maciça de Saddam Hussein (ver mais à frente).Na sua maturidade, Strauss foi um grande admirador de Maquiavel, que ele pensava ter interpretado melhor que ninguém. Nas suasRéflexions sur Machiavel-(Reflexões sobre Maquiavel) , ele demarca-se dos intelectuais que tentam reabilitar o Florentino contra o senso comum que o toma por amoral. Ao contrário, Strauss aprecia a amoralidade absoluta de Maquiavel, na qual ele via a fonte do seu génio revolucionário: «Nós valorizamos a opinião corrente sobre Maquiavel, não apenas porque é completa mas, sobretudo, porque não levar esta opinião a sério nos impediria de fazer justiça àquilo que é verdadeiramente admirável em Maquiavel: o carácter intrépido do seu pensamento, a grandeza da sua visão e a subtileza graciosa do seu discurso». O pensamento de Maquiavel é tão puro e radical que as suas implicações últimas não poderiam ser expostas abertamente: «Maquiavel não pode ir até ao fim do percurso; a parte final do caminho deve ser feita pelo leitor que compreenderá o que foi omitido pelo autor». Strauss é o guia que permite aos espíritos eleitos (os seus alunos neo-conservadores) seguir a estrada até ao fim:

«Para descobrir a partir dos seus escritos o que ele considerava como a verdade é difícil, mas não é impossível». A verdade profunda de Maquiavel, que só o filósofo (straussiano) é capaz de encarar não é um sol ofuscante mas sim um buraco negro, um abismo que só o filósofo (straussiano) é capaz de contemplar sem se transformar em idiota: não tendo o universo que preocupar-se com a espécie humana e não sendo o individuo senão um insignificante grão de areia, não existindo nem bem nem mal, e sendo ridículo preocupar-se com a salvação da alma, mais do que da única realidade que pode levar à imortalidade: a nação. Maquiavel é pois o perfeito patriota, e o straussianismo é a forma pura do maquiavelismo, reservada aos eleitos.

Existem straussianos entre os arautos do imperialismo americano, mas é à causa de Israel que se devotam, prioritariamente, os neo-conservadores. O que os caracteriza não é tanto o judaísmo enquanto tradição religiosa, mas o sionismo enquanto causa nacional — uma causa que implica não somente a segurança de Israel, mas também a sua expansão a toda a Palestina, o Grande Israel. É bem evidente que, se o sionismo é sinónimo de patriotismo em Israel, já não poderá ser uma etiqueta muito aceitável para um movimento político nos Estados-Unidos, onde isso significaria uma lealdade a uma potência estrangeira. É por tal que os neo- conservadores não se reclamam como sionistas na cena política norte-americana. Mas também não o escondem entretanto. Elliott Abrams, conselheiro nacional de segurança adjunto na administração de Bush filho, escreveu no seu livro La Foi ou la Peur – (a Fé ou o Medo,NdT), acerca de

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«A Fé ou o Medo, como os judeus podem sobreviver numa América cristã», por Elliott Abrams (1997)

como podem os judeus sobreviver numa América cristã. Dificilmente se encontraria uma melhor definição do sionismo, cujo corolário é o apartheid praticado contra os não-judeus da Palestina, que o defendido na mesma altura por Douglas Feith nas suasRéflexions sur le libéralisme, la démocratie et le sionisme- (Reflexões sobre o liberalismo, a democracia e o sionismo, NdT), pronunciadas em Jerusalém: «Há no mundoum lugar para as nações não-étnicas e um outro lugar para as nações étnicas».

Se estamos autorizados a considerar os neo-conservadores como sionistas, é sobretudo constatando que as suas escolhas em política externa coincidiram sempre de forma perfeita com o interesse de Israel (tal como eles o concebem), ao ponto de suscitar legítimas interrogações sobre a sua lealdade principal. O interesse de Israel é desde sempre entendido como estando dependente de duas coisas: a imigração dos judeus da Europa do Leste e o apoio financeiro dos judeus do Ocidente (americanos e, em menor escala, europeus). Até 1967, o interesse nacional fazia pender Israel para a União Soviética, enquanto o apoio dos judeus americanos permanece restrito. A orientação socialista e colectivista do Partido trabalhista, fundador e maioritário, a isso o inclinam, mas as suas boas relações com a URSS de então explicam-se sobretudo pelo facto da imigração maciça de judeus não ser possível senão pela boa vontade do Kremlin. Durante os três anos a seguir à partida dos Britânicos (1948) que tinham até lá limitado a imigração por consideração para com a população árabe, 200.000 judeus polacos refugiados na URSS foram autorizados a viajar para a Palestina, enquanto outros afluem da Roménia, Hungria e Bulgária.

Mas a guerra dos Seis Dias marca uma viragem: em 1967, Moscovo protesta contra a anexação por Israel de novos territórios rompendo as suas relações diplomáticas com Telavive e parando subitamente a emigração dos seus cidadãos judeus, que tinha sido entretanto acelerada nos meses precedentes. Foi a partir desta data que a Commentary se torna, no dizer de Benjamin Balint, «o magazine polémico que transformou a esquerda judia numa direita neo-conservadora». Desde logo, os neo-conservadores tomam, com efeito consciência que a sobrevivência de Israel — e se possível a sua expansão territorial — depende da ajuda e da protecção militar norte-americana, e simultaneamente que a necessária imigração não poderá ser atingida senão pela queda do comunismo. Estes dois objectivos convergem na necessidade de reforçar o poder militar dos Estados-Unidos. Esta é a razão pela qual, escreve Irving Kristol na revista do American Jewish Congress – (Congresso Judeu Americano, NdT)- em 1973, é preciso combater a proposta de George McGovern de reduzir o orçamento militar em 30 %: «Écolocar uma faca no coração de Israel. […] Os judeus não gostam de grandes orçamentos militares, mas, agora, é do interesse dos judeus ter um grande e poderoso aparelho militar nos Estados-Unidos. […] Os judeus americanos que se preocupam com a sobrevivência do Estado de Israel devem dizer ‘não, nós não queremos reduzir o orçamento militar, é importante conseguir um grande orçamento militar, afim de poder defender Israel». Compreende-se melhor a realidade de que Kristol falava, quando ele definia, numa fórmula célebre, um neo-conservador como «um liberal que tinha sido confrontado com a realidade». 

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Henry Scoop Jackson (1912-1983)

No final dos anos 60, os neo-conservadores apoiam a franja
militarista do partido democrata, cuja figura de proa, após a
retirada de Lyndon Johnson, é o senador Henry Scoop
Jackson, partidário da guerra do Vietname e opositor a
qualquer ideia de “detente”, concorrente de McGovern nas
primárias – (eleições dentro partido,NdT) – de 1972. Richard
Perle redige a emenda Jackson-Vanik, que condiciona a ajuda
alimentar à URSS à livre emigração dos judeus. Foi também
no seio do gabinete de Scoop Jackson que se forjou a aliança
entre os neo-conservadores e o tandem Rumsfeld-Cheney, que
aproveita a brecha do Watergate para aderir ao campo
republicano e investir para a Casa-Branca. Perle coloca os
seus protegidos Paul Wolfowitz e Richard Pipes à cabeça do
«Grupo B» (Team B), um conselho criado para rever em alta as estimativas da CIA sobre a ameaça soviética, cujo relatório, maliciosamente, alarmista, pregando um aumento dramático do orçamento da Defesa, é publicado na Commentary. Durante o parêntesis Carter, os neo-conservadores associam-se aos cristãos evangélicos, vísceralmente anti-comunistas e naturalmente favoráveis em relação a Israel, que eles vêem como um milagre divino pré-figurando o retorno de Cristo.

Henry Scoop Jackson (1912-1983)

Graças à força dos seus lobbis think tank (nomeadamente oAmerican Enterprise Institute for Public Policy Research  e o Hudson Institute), os neo-conservadores jogam uma cartada decisiva na eleição de Ronald Reagan, que lhes retribui nomeando uma dezena de entre eles para postos que vão desde a Segurança nacional à Política externa: Richard Perle e Douglas Feith para o Department of Defense, Richard Pipes para oNational Security Council , Paul Wolfowitz, Lewis «Scooter» Libby e Michael Ledeen para o State Department. Eles trabalham para reforçar a aliança dos Estados-Unidos com Israel: em 1981, os dois países assinam o seu primeiro pacto militar, depois embarcam em várias operações comuns, algumas legais e outras clandestinas como a rede de tráfico de armas e de operações paramilitares do negócio Irão-Contras. Anti-comunismo e sionismo estão, agora, tão bem coligados que em 1982, no seu livro Le Vrai antisémitisme en Amérique – (O real anti-semitismo na América,NdT) , o director da Anti-Defamation League Nathan Perlmutter pode assimilar o movimento pacifista dos «ultrapassados artesãos da paz do Vietname, transmutando as espadas em relhas de arados» , a uma nova forma de anti- semitismo.

Com o fim da Guerra fria, o interesse nacional de Israel muda de novo. O objectivo prioritário deixou agora de ser a queda do comunismo, mas sim o enfraquecimento dos inimigos de Israel. Os neo-conservadores vivem a sua segunda conversão, do anti-comunismo à islamofobia, e criam novos think tanks como oWashington Institute for Near East Policy – (sigla em inglês para Instituto de Washigton para a Política do Próximo-Oriente)- (WINEP) dirigido por Richard Perle, o Middle East Forum dirigido por Daniel Pipes (o filho de Richard), o Center for Security Policy (CSP) fundado por Frank Gaffney, ou ainda oMiddle East Media Research Institute (Instituto de Pesquisa para a Media do Médio-Oriente,NdT)(Memri). Entretanto, ao aceder à presidência, Bush pai tenta limitar a influência destes que ele apelida «os loucos». Ele cultiva as relações com a Arábia saudita e não é um amigo de Israel. Mas é forçado a conceder o posto de secretário da Defesa a Dick Cheney, que se rodeia de Paul Wolfowitz e Scooter Libby. Estes dois homens são os autores de um relatório secreto do Defense Planning Guidance – (Guia do Planeamento de Defesa, NdT), passado à imprensa, que prega o imperialismo, o unilateralismo e, se necessário, a guerra preventiva «para dissuadir os potenciais competidores a sequer aspirar a um papel regional ou global maior».  Com a ajuda de um novo Committee for Peace and Security in the Gulf (Comité para a Paz e Segurança no Golfo,NdT), co-presidido por Richard Perle, os neo-conservadores advogam, sem sucesso, pelo derrube de Saddam Hussein após a operaçãoTempestade do Deserto no Koweit. Desapontados pela recusa de Bush, (pai – NdT), de invadir o Iraque e pelas suas pressões sobre Israel, os neo-conservadores sabotam as suas hipóteses de um segundo mandato. A sua desforra será completa quando eles conseguem a eleição do seu filho para o levar a invadir o Iraque.

No entre-tempo, durante os dois mandatos do democrata Bill Clinton, os neo- conservadores preparam o seu retorno. William Kristol, o filho de Irving, funda em 1995 um novo magazine, oWeekly Standard, que graças ao financiamento do muito pró-Israel Rupert Murdoch, se torna imediatamente a voz dominante dos neo-conservadores. Em 1997, esta será a primeira publicação a exigir uma nova guerra contra Saddam Hussein. Com os seus porta-vozes Rumsfeld e Cheney, os neo- conservadores lançam todo o seu peso num último think tank, Project for the New American Century (PNAC) – (sigla em inglês para Projecto para o Novo Século Americano, NdT). O nobre fim que se atribuem oficialmente os fundadores, William Kristol et Robert Kagan, é de «estender a actual Pax Americana» , o que supõe «umexército que seja forte e pronto para responder aos desafios presentes e futuros».  No seu relatório de setembro de 2000 intitulado Reconstruir as Defesas da América, o PNAC antecipa que as forças armadas dos Estados-Unidos devem conservar forças suficientes para serem «capazes de se desdobrar rapidamente e de conduzir vitoriosamente vários grandes conflitos em simultâneo».  Isto requer uma transformação profunda, incluindo um novo corpo («U.S. Space Forces») para o controlo do espaço e do ciberespaço, e o desenvolvimento de «uma nova família de armas nucleares destinada a fazer face a novas necessidades militares».  Infelizmente, reconhecem os autores do relatório, «o processo de reconversão […] será seguramente longo, a menos que surja um acontecimento catastrófico jogando o papel de catalisador — como um novo Pearl Harbor». Embora fora do governo, os neo-conservadores aí continuam a ser bem escutados.

Com a designação em 2000 de George W. Bush, filho de George H. W. Bush, uma vintena de neo-conservadores do PNAC são investidos em numerosos postos chave da política externa, graças a Dick Cheney que, após se ter escolhido a ele próprio como vice-presidente, tem por missão formar a equipe de transição. Cheney escolhe como chefe de gabinete Scooter Libby. David Frum, um próximo de Richard Perle, torna-se o principal redactor dos discursos do presidente, enquanto que Ari Fleischer, um outro neo-conservador, é adido de imprensa e porta-voz da Casa-Branca. Cheney não se pode opor à nomeação de Colin Powell como secretário de Estado, mas ele impõe-lhe como colaborador John Bolton, republicano sionista de extrema direita, secundado pelo neo-conservador David Wurmser. Cheney faz nomear como conselheira nacional de segurança Condoleezza Rice, que não é propriamente falando neo-conservadora mas que estava ligada há vários anos a um dos neo- conservadores mais agressivos, Philip Zelikow, como perito do Próximo-Oriente e do terrorismo, (sendo ela não mais que especialista sobre a União soviética e acessoriamente pianista virtuosa); para assessorar Rice são igualmente recrutados William Luti e Elliot Abrams, (ambos simultaneamente assistentes do presidente). Mas será sobretudo a partir do Departamento da Defesa, confiado a Donald Rumsfeld, que os três neo-conservadores mais influentes vão poder modelar a política externa: Paul Wolfowitz, Douglas Feith e Richard Perle, este último ocupando o posto chave de director do Defense Policy Board (Gabinete da Política de Defesa,NdT), encarregado de definir a estratégia militar. Assim, todos estes neo- conservadores se encontram no lugar que eles preferem, o de conselheiros e eminências pardas dos presidentes e ministros. Falta apenas o «novo Pearl Harbor», do 11 de setembro de 2001, para que os neo-conservadores possam conduzir os Estados-Unidos para as guerras imperiais dos seus sonhos. Antes do 11-Setembro, o relatório do PNAC pedia um orçamento anual da Defesa de 95 biliões de dólares; desde a guerra no Afeganistão, os Estados-Unidos despendem 400 biliões por ano, ou seja tanto como o resto do mundo todo junto, continuando ao mesmo tempo a fornecer a metade do armamento do mercado mundial. O 11-Setembro apareceu como a validação do paradigma do «Choque das civilizações» caro aos neo- conservadores.

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Discursos-reflexos

A obra publicada em 2007 por John Mearsheimer e Stephen Walt, Le lobby pro- israélien et la politique étrangère américaine (O lobbi pró-israelita e a política estrangeira Americana,NdT) , provocou uma onda de choque na opinião pública americana ao revelar a considerável influencia dos grupos de pressão pró-Israel, dos quais o mais antigo é a Zionist Organization of America (Organização Sionista da América,NdT) e o mais influente desde os anos 70, o American Israel Public Affairs Committee (Comité de Relações Públicas Americano-Israelita,NdT) (AIPAC). «Nós pensamos, escrevem os autores, que as actividades do lobbi são a principal razão pela qual os Estados-Unidos prosseguem no Médio-Oriente uma política desprovida de coerência, estratégica ou moral.» A tese dos autores está incompleta, porque eles não evocam o papel desempenhado no próprio interior do aparelho de Estado pelos neo-conservadores, que formam o outro braço de uma tenaz que mantêm os Estados- Unidos prisioneiros actualmente.

As duas forças que constituem os cripto-sionistas infiltrados no governo e a pressão do lobbi pró-Israel sobre o Congresso agem numa panelinha por vezes criminosa, como o ilustra a inculpação em 2005 de Lawrence Franklin, membro do Office of Special Plans, por ter transmitido documentos classificados da defesa a dois responsáveis do AIPAC, Steven Rosen e Keith Weissman, que os transmitiram por sua vez a um alto funcionário de Israel. Franklin foi condenado a treze anos de prisão (reduzidos em seguida a dez anos de prisão domiciliária), enquanto que Rosen e Weissman foram ilibados. A maior parte dos neo-conservadores são membros activos do segundo lobbi pró-Israel, o mais poderoso, o Jewish Institute for National Security Affairs-(Instituto Judaico para os Assuntos de Segurança Nacional, NdT) (JINSA), ao qual pertencem igualmente Dick Cheney, Ahmed Chalabi e outros membros da cabala que fomentou a invasão do Iraque. Colin Powell, segundo a sua biógrafa Karen DeYoung, vociferava em privado contra o «o governozinho paralelo»  composto por «Wolfowitz, Libby, Feith, and Feith’s ‘Gestapo office’», que ele chamava «a cambada do JINSA». 

Em 2011, o seu antigo director de gabinete Lawrence Wilkerson denunciava abertamente a duplicidade dos neo-conservadores: «Eu via muitos destes tipos, incluindo Wurmser, como membros do Likud, tal como Feith. Vós não iríeis abrir a sua carteira para lá encontrar um cartão do partido, mas eu perguntei-me muitas vezes se a sua lealdade principal era para com o seu país ou para com Israel. Era o que me incomodava, porque o muito que fizeram e disseram refletia mais os interesses de Israel que os nossos».   De facto, um numero significativo de neo- conservadores são cidadãos israelitas, tem a família em Israel ou aí residiram eles próprios. Certos são declaradamente próximos do Likud, o partido no poder em Israel, e vários foram mesmo oficialmente conselheiros de Benyamin Netanyahou. Um grande numero de entre eles são regularmente felicitados pela imprensa israelita pela sua acção em favor de Israel, como Paul Wolfowitz, nomeado «Man of the Year»,(Personalidade do Ano,NdT), pelo muito pró-Likud Jerusalém Post em 2003, e «a mais belicista voz pró-Israelita da Administração»  pelo quotidiano judeu americano The Forward.

Por muito perturbante que seja, a duplicidade dos neo-conservadores é uma conclusão hoje em dia largamente partilhada, até mesmo publicamente denunciada, por um grande numero de observadores. O sociólogo James Petras vê neles a ponta de lança de uma nebulosa do poder sionista no seu livro O sionismo, o militarismo e o declínio do poder dos EU .Jonathan Cook argumenta em Israel e o choque das civilizações: Iraque, Irão e o plano de remodelação do Próximo-Oriente  (2008) que a «guerra contra o terror» dos neo-conservadores tem como fim último fazer de Israel a única potência do Próximo-Oriente. A demonstração desta duplicidade foi feita igualmente por Stephen Sniegoski que chega à mesma conclusão em La Cabale transparente: l’agenda néoconservateur, la guerre au Proche-Orient et l’intérêt national d’Israël (A Cabala transparente: a agenda neo-conservadora, a guerra no Próximo-Oriente e o interesse nacional de Israel,NdT).  Destes três livros publicados em 2008, nós copiamos o essencial do que se segue. A demonstração da duplicidade dos neo-conservadores repousa sobre a coincidência entre a fundação do PNAC em 1996 e a publicação pelo think-tank israelita Institute for Advanced Strategic and Political Studies (Instituto de Estudos Políticos e Estratégicos Avançados,NdT), de um relatório intitulado Uma rotura clara: uma nova estratégia para garantir a segurança do reino [de Israel].  O relatório, dirigido ao Primeiro-ministro eleito, novamente Benjamin Netanyahou, convida-o « a mobilizar todas as energias possíveis para a reconstrução do sionismo»  o que supõe a rotura com o processo de Oslo, quer dizer abandonar a política «paz por terra»de restituição dos territórios ocupados, e reafirmar o direito de Israel sobre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. « A nossa reivindicação da terra — à qual nós ficamos agarrados por uma esperança de 2000 anos — é legitima e nobre. […] Só a aceitação incondicional pelos Árabes dos nossos direitos, em particular na sua dimensão territorial, “a paz pela paz”, será uma base sólida para o futuro». 

Os autores de Rotura clara encorajam pois o Primeiro-ministro israelita a adoptar uma política de anexação territorial contrária não somente à posição oficial dos Estados-Unidos e das Nações Unidas desde sempre, mas contrária igualmente ao discurso oficial de Israel. No momento em que assina, em setembro de 1999, a «Carta do roteiro» devendo conduzir a um Estado palestiniano e prosseguindo nesta via na cimeira de Camp David em julho de 2000, Netanyahou segue os conselhos daRotura clara e trabalha secretamente para sabotar este processo. Netanyahou tem então por ministro dos Negócios estrangeiros Ariel Sharon, que qualifica abertamente os Acordos de Oslo como «suicídio nacional» e pronuncia-se pelas «fronteiras bíblicas»,quer dizer um Grande Israel não deixando nenhuma terra aos Palestinianos: «Toda a gente deve correr e apoderar-se de todas as colinas que for possível para alargar os colonatos porque tudo o que nós apanharmos agora ficará nosso» , declarou ele a 15 de novembro de 1998. Em 1999, Sharon sucede à Netanyahou, que se torna, por sua vez, ministro dos Negócios estrangeiros. A 28 de março de 2001, a diplomacia internacional colocou a paz no Próximo-Oriente ao alcance da mão: 22 nações reunidas em Beirute sob a égide da Liga Árabe comprometem-se a reconhecer Israel sob a condição de aplicação da Resolução 242. Mas no dia seguinte, o exército israelita invade Ramallah e cerca Yasser Arafat no seu QG, ao arrepio dos protestos da comunidade internacional. Seis meses mais tarde, o 11-Setembro enterrará definitivamente o processo de paz.

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«Richard Perle é um traidor, não há nenhuma outra maneira de o qualificar» afirmava o jornalista Seymour Hersh no The New Yorker ( a 17 de março de 2003), evocando as suas mentiras flagrantes sobre o Iraque (Perle respondeu na CNN que Hersh «era a coisa mais próxima que o jornalismo americano tinha de um terrorista»). Em 1970, uma escuta do FBI tinha surpreendido Perle transmitindo à embaixada de Israel informações classificadas obtidas de Hal Sonnenfeldt, membro do Conselho de segurança nacional. Perle trabalhou para a firma de armamento israelita Soltam, antes de fazer aconselhamento do primeiro-ministro israelita. Ele passa as suas férias nas sua “villa” de Gordes, no Lubéron.

Para além desta política local, Rotura claraapresenta um plano permitindo a Israel «modelar o seu ambiente estratégico», começando por «retirar Saddam Hussein do poder no Iraque», depois enfraquecendo a Síria e o Líbano, e finalmente o Irão.

O que é notável neste relatório, é que se trata de um manifesto político estratégico destinado ao governo israelita, escrito por cidadãos com dupla nacionalidade que são simultaneamente autores do manifesto do PNAC e que se tornarão quatro anos mais tarde decisores da política externa americana: a equipa que produziu Clean Break é com efeito dirigida por Richard Perle, futuro presidente do Defense Policy Board (Gabinete da Política de Defesa,NdT) no Pentágono, e conta igualmente com Douglas Feith, futuro sub-secretário da Defesa encarregado da política, e David Wurmser, que integrará o Departamento de Estado, tal como a sua esposa Meyrav. Precisando, aqueles que em Israel apoiam o Likud e aconselham a Netanyahou uma política sionista de anexação dos territórios palestinos, vão em seguida aconselhar Bush sobre as questões de estratégia militar no Próximo-Oriente. Não surpreende pois a constatação que os conselhos sejam os mesmos, e que o programa sugerido a Netanyahou, como o derrube de Saddam, tenha sido implementado em parte pelos Estados-Unidos.

Se há diferenças entre o relatório Rotura clara, escrito para o governo israelita em 1996, e o relatório Reconstruir as defesas da América escrito pelos mesmos para o governo dos Estados-unidos em 2000, não é própriamente no programa, mas nas razões justificativas.

Primeiramente, Rotura clara não apresenta o Iraque como uma ameaça, mas pelo contrário como o elo fraco dos inimigos de Israel, o menos perigoso e o mais fácil a quebrar. Num documento a seguir a Rotura clara intitulado Fazer face aos Estados que colapsam: uma estratégia de equilíbrio ocidental e israelita de poder para o Levante , David Wurmser sublinha a fragilidade dos Estados do Próximo-Oriente, e em particular do Iraque: « a unidade residual da nação é uma ilusão projetada pela repressão extrema do Estado» . É pois a mesma acção que é aconselhada a Israel e aos Estados-Unidos, mas por razões opostas. A fraqueza do Iraque, que é para Israel a razão para atacar em primeiro lugar, não constitui uma razão válida para os Estados-Unidos: apresenta-se pois o Iraque aos norte-americanos como uma ameaça mortal para o seu país. Netanyahou assinará ele mesmo um artigo no Wall Street Journal em setembro de 2002, sob o título «O dossiê para derrubar Saddam» , descrevendo Saddam como «umditador que desenvolve o seu arsenal de armas biológicos e químicas, que utilizou estas armas de destruição maciça contra o seu próprio povo e os seus vizinhos, e que tenta febrilmente adquirir armas nucleares».  Nenhuma ameaça semelhante é mencionada nos documentos internos israelitas, que não relatam além disso qualquer conexão do Iraque com a Al-Qaida, nem com Al-Qaida em geral.

Segunda diferença fundamental entre a estratégia aconselhada aos Israelitas e a propaganda vendida aos Norte-americanos pelos mesmos autores: enquanto a segunda põe em destaque, por um lado, o interesse securitário dos Estados-Unidos, e por outro, o nobre ideal de expandir a democracia no Próximo-Oriente, a primeira ignora estes dois temas. As convulsões consideradas pelos autores de Rotura clara não são supostas trazer qualquer benefício ao mundo árabe. Pelo contrário, o objectivo é claramente o de enfraquecer os inimigos de Israel agudizando os conflitos étnicos, religiosos e territoriais entre países e no interior de cada país. O que recomenda Rotura clara para o Iraque, por exemplo, não é nada a democracia mas a restauração de uma monarquia pró-ocidental. Um tal propósito era evidentemente secundário para os Norte-americanos, mas o objectivo realizado lá por Lewis Paul Bremer à frente da Coalition Provisional Authority – (Autoridade Provisória da Coligação)-(CPA) em 2003, a saber, a destruição das infraestruturas militares e civis em nome da «des-Baassificação», foi um sucesso do ponto de vista do Likud. Sob a responsabilidade de Bremer, 9 biliões de dólares desapareceram em fraudes, corrupção e desvio de fundos, segundo um relatório do Inspector geral especial para reconstrução do Iraque, Stuart Bowen, publicado a 30 de janeiro de 2005. Lembremos que Bremer foi também aquele que, apenas duas horas após o colapso das torres gémeas a 11 de setembro de 2001, se encontrava no estúdio da cadeia NBC como presidente da National Commission on Terrorism – (Comissão Nacional sobre o Terrorismo, NdT), para explicar, em tom calmo e seguro: «Ben Laden estava implicado no primeiro atentado contra o World Trade Center [em 1993], cuja intenção era fazer exactamente o que se passou aqui, quer dizer o colapso das torres. Ele é seguramente um suspeito e tanto. Mas há outros no Médio-Oriente, e há pelo menos dois Estados, Irão e Iraque, que devem, até ver, constar na lista dos principais suspeitos».  Com esta declaração bem medida, Bremer inscrevia não apenas o acontecimento na história ao lembrar os atentados de 1993 contra o World Trade Center, postos arbitráriamente na conta de Ben Laden; mas além disso, ele anunciava já a história futura ao anunciar aos Norte-americanos as duas guerras principais com que deviam agora contar. Assim que o jornalista da NBC, numa réplica teleguiada, fez um paralelo com Pearl Harbor, o dia que mudou a vida da geração precedente, Bremer confirmou: «É o dia que vai mudar as nossas vidas. É o dia onde a guerra foi declarada pelos terroristas contra os Estados-Unidos […] foi trazida ao território dos Estados-Unidos». 

 

A diferença entre o discurso israelita de Perle, Feith e Wurmser e o seu discurso norte-americano encontra a sua explicação no próprio documento israelita, que recomenda a Netanyahou que apresente as ações israelitas «numa linguagem familiar aos Americanos, bebendo nos temas das administrações americanas durante a Guerra fria que se apliquem bem ao caso de Israel». O governo de Netanyahou deverá «promover os valores e as tradições ocidentais. Uma tal abordagem […] será bem acolhida nos Estados-Unidos».  Os valores morais não são pois evocados senão a título utilitário para mobilizar os Estados-Unidos. Enfim, enquanto os autores do relatório israelita insistem na importância de ganhar a simpatia e o apoio dos Estados-Unidos, eles afirmam ao mesmo tempo que um dos fins últimos da sua estratégia é a de libertar Israel das pressões e da influência dos Estados-Unidos: «Uma tal autonomia dará a Israel uma maior liberdade de ação e suprimirá um meio de pressão significativo utilizado pelos Estados-Unidos contra si no passado». 

Fazer passar a ameaça contra Israel por uma ameaça contra os Estados-Unidos permite fazer conduzir a guerra de Israel pelos Estados-Unidos. No seu livro La Fin du Mal-(O Fim do Mal, NdT)(2003) , Richard Perle e David Frum aplicam-se a fazer interiorizar aos Norte-americanos os medos dos Israelitas, por exemplo quando clamam pela urgência de «pôr fim a este mal antes que ele mate de novo e a uma escala genocida. Não há aqui meias medidas para os Americanos: É a vitória ou o holocausto».  Mas, é impossível a qualquer um ser constantemente hipócrita, e acontece a qualquer neo-conservador debitar imprudentemente o seu pensamento em público. Foi o que aconteceu a Philip Zelikow, o conselheiro de Condoleezza Rice e director executivo da Comissão sobre o 11-Setembro, descaindo-se a propósito da ameaça iraquiana durante uma conferência na Universidade da Virgínia a 10 setembro de 2002: «Porque é que o Iraque atacaria a América ou utilizaria armas nucleares contra nós? Eu vou vos dizer aquilo que é, na minha opinião, a verdadeira ameaça, e que sempre foi desde 1990: é a ameaça contra Israel. É a ameaça que não ousa confessar o seu nome, porque os Europeus não se preocupam muito com esta ameaça, digo-vo-lo francamente. E o governo americano não quer muito apoiar-se nela retóricamente, porque não é um tema politicamente correcto». Tudo claro: é preciso levar os EUA a fazer a guerra aos inimigos de Israel, e para isto convencer os Norte-americanos que os inimigos de Israel são os seus inimigos.

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Interrogado no dia seguinte ao 11-Setembro sobre as consequências disto nas relações entre os Estados-Unidos e Israel, Benjamin Netanyahou declara: «É óptimo […] isto vai gerar imediatamente a simpatia […], reforçar os laços entre os dois povos.» (fonte: A Day of Terror: The Israelis, por James Bennet, The New York Times, 12 de setembro de 2001).

Além disso, é preciso que os Americanos creiam que estes
inimigos detestam o seu país pelo que ele incarna (a
democracia, a liberdade, etc.), e não em razão do seu apoio a
Israel, enquanto tal é, na realidade, a principal causa do
ressentimento contra os Estados-unidos no mundo
muçulmano. Os signatários de uma carta do PNAC dirigida ao
presidente Bush a 3 de abril de 2002 (incluindo William
Kristol, Richard Perle, Daniel Pipes, Norman Podhoretz,
Robert Kagan, James Woolsey) irão ao ponto de pretender
que o mundo árabe odeia Israel porque este é amigo dos
Estados-Unidos, mais do que o inverso: «Ninguém deve
duvidar que os Estados-Unidos e Israel partilham um inimigo
comum. Nós somos ambos o alvo do que vós chamastes, justa
mente, um ‘Eixo do Mal’. Israel é atacado em parte porque é
nosso amigo, e em parte porque é uma ilha de liberdade e de
princípios democráticos — os princípios americanos — num
oceano de tirania, de intolerância e de ódio». A 20
setembro de 2001, Netanyahou propagou a mesma
falsificação histórica aquando de uma audição no Congresso:
«Hoje, nós somos todos Americanos […] Para os Ben Laden
do mundo inteiro, Israel é simplesmente um alvo colateral. O
alvo real é a América». Três dias mais tarde, é oThe New
Republic que titulava, em nome dos Norte- americanos: «Nós
agora somos todos Israelitas».  expressão de um ódio a seu respeito da parte do mundo árabe, e sentiram uma simpatia imediata por Israel, que os neo-conservadores exploraram sem descanso, como Paul Wolfowitz declarava a 11 de abril de 2002: «Após o 11-Setembro, nós Americanos temos uma coisa em comum com os Israelitas. Nesse dia a América foi atingida por atentados- suicidas. Nesse momento, cada Americano compreendeu o que significava viver em Jerusalém, ou Netanya ou Haifa. E, depois do 11-Setembro, os Americanos sabem agora porquê é que nós devemos bater-nos e ganhar a guerra contra o terrorismo». 

Um dos fins evidentes é de fazer passar, aos olhos dos Americanos, a opressão dos Palestinianos por uma luta contra o terrorismo islâmico. Com efeito, como o afirmou o professor Robert Jensen: «Depois do atentado do 11-Setembro contra os Estados- Unidos, a estratégia de comunicação de Israel foi a de apresentar toda a ação palestiniana, violenta ou não, como terrorismo. Até onde conseguiram chegar, eles re-apresentaram a sua ocupação militar ilegal como fazendo parte da guerra da América contra o terrorismo». A 4 de dezembro de 2004, o Primeiro-ministro Ariel Sharon justificou a sua brutalidade contra os habitantes da Faixa de Gaza pretendendo que a Al-Qaida aí tinha estabelecido uma base. Mas a 6 de dezembro, o chefe da Segurança Palestiniana Rashid Abu Shbak apresenta numa conferência de imprensa os dados telefónicos e bancários que provam que os serviços secretos de Israel tentaram eles próprios criar falsas células Al-Qaida na Faixa de Gaza, para isso recrutando Palestinianos em nome de Ben Laden. Os recrutas tinham recebido dinheiro e armas (defeituosas) e, após cinco meses de endoutrinamento, foram encarregados de reivindicar um próximo atentado em Israel em nome do «Grupo da Al-Qaida em Gaza». Os serviços israelitas previam, parece, montar eles mesmos um atentado contra a sua população e fazê-lo reivindicar pela falsa célula da Al-Qaida, afim de justificar as represálias .

Em Abril de 2003, um relatório intitulado Israeli Communications Priorities 2003(Prioridades da Comunicação Israelita,NdT), encomendado à agência de comunicação Luntz Research Companies & the Israel Project pela Wexler Foundation, organismo sionista especializado em intercâmbios culturais, oferece recomendações linguísticas para «integrar a história e a comunicação, e usá-las como ferramentas, no interesse de Israel»  junto da opinião norte-americana. É aconselhado, por exemplo, continuar a evocar sempre que possível «Saddam Hussein», que são ao mesmo tempo «as duas palavras que unem Israel à América» e «as duas palavras que são actualmente sem dúvida as mais detestadas da língua inglesa».  «Durante o próximo ano — um ano INTEIRO — devereis invocar o nome de Saddam Hussein e lembrar que Israel esteve sempre solidário com os esforços americanos com vista a desembaraçar o mundo deste ditador cruel e de libertar o seu povo».  O relatório sugere além disso estabelecer de maneira repetida um paralelo entre Saddam Hussein e Yasser Arafat. [76]

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No dia seguinte aos atentados do 11- Setembro, o Le Monde intitula o seu editorial «Nós somos todos Americanos»

Sofisticação máxima: Michael Ledeen contesta no seu livro La Guerre contre les maîtres de la terreur – (A Guerra contra os Mestres do Terror, NdT)(2003) [77] a ideia geral que a paz na Palestina é a condição para a paz no Próximo-Oriente. Afirma ao contrário, «Se nós destruirmos os mestres do terror em Bagdade, Damasco, Teerão e Riade, nós poderemos ter uma hipótese de negociar uma paz duradoura na Palestina». 

A caminho da Quarta Guerra mundial

Os neo-conservadores tentaram explorar o traumatismo do 11- Setembro, do qual foram os arquitectos, para mobilizar os Estados-Unidos contra uma longa lista de países árabes, e muçulmanos, entre os quais aliados históricos. O Iraque é o primeiro visado. Desde a primeira guerra do Golfo, os neo-conservadores não cessaram de vilipêndiar o regime de Saddam Hussein e de apelar ao seu derrube. David Wurmser, por exemplo, publica em 1999, após outros livros virulentos contra os países muçulmanos, Allié de la tyrannie: l’échec de l’Amérique à vaincre Saddam Hussein – ( Aliado da tirania: o falhanço da América na batalha contra Saddam Hussein, NdT) . Em 2000, l’American Enterprise Institute publica Étude d’une vengeance: la première attaque contre le World Trade Center et la guerre de Saddam Hussein contre l’Amérique – (Estudo sobre uma vingança: o primeiro ataque contra o World Trade Center e a guerra de Saddam Hussein contra a América, NdT)  , cujo autor, Laurie Mylroie, se diz devedor a Scooter Libby, David Wurmser, John Bolton, Michael Ledeen, e ainda mais a Paul Wolfowitz e à sua esposa Clare Wolfowitz, membro ela também do AEI. Mylroie não hesita denunciar Saddam Hussein como o cérebro do terrorismo anti-americano, atribuindo-lhe sem provas o atentado de 1993 contra o World Trade Center, o atentado de Oklahoma City(cometido por Timothy McVeigh,cidadão americano, NdT) em 1995 e o ataque contra o USS Cole no Iémen em 2000. Aquilo que ameaçava os Estados-Unidos seria segundo ela «uma guerra secreta terrorista, conduzida por Saddam Hussein» , o terrorismo anti-americano sendo na realidade «um episódio num conflito que começara em agosto de 1990, quando o Iraque invadiu o Koweit, e que não mais acabara».  Richard Perle descreveu este livro como «magnifico e claramente convincente». 

Desde 19 setembro de 2001, que Richard Perle reunia o seuDefense Policy Board – (Gabinete da Política de Defesa, NdT) em companhia de alguns neo-conservadores como Paul Wolfowitz e Bernard Lewis (inventor antes de Huntington da profecia auto-demonstrativa do «choque das civilizações»), mas na ausência de Colin Powell e de Condoleezza Rice. O grupo pôs-se de acordo sobre a necessidade de derrubar Saddam Hussein a partir do fim da fase inicial da guerra no Afeganistão. Preparam uma carta para Bush, redigida sob orientação do PNAC e lembrando-lhe a sua missão histórica: «mesmo se faltam provas de um laço directo entre o Iraque e o ataque, qualquer estratégia visando a erradicação do terrorismo e dos seus patrocinadores deve incluir um esforço determinado para derrubar Saddam. Não empreender este esforço corresponderá a abandonar à partida, e de maneira talvez decisiva, a guerra contra o terrorismo internacional».  O argumento de uma ligação entre Saddam e a Al-Qaida é aqui relativizado e, no verão de 2002, o presidente Bush e o Primeiro ministro britânico Tony Blair contentar-se-ão em evocar conjuntamente os «laços fluidos»  entre o regime de Saddam e a Al-Qaida. Perle, pelo contrário, não desistirá, afirmando, contra toda a evidência, que Mohamed Atta, o pretenso condutor dos terroristas do 11-Setembro, se teria encontrado com o diplomata iraquiano Ahmed Khalil Ibrahim Samir em Praga em 1999. A 8 de setembro de 2002 em Milão, Perle largará mesmo um “scoop” ao diário italiano Il Sole 24 Ore:«Mohammed Atta encontrou-se com Saddam Hussein em Bagdade antes do 11-Setembro. Nós temos provas disso». Ele evitará repetir esta alegação ridícula nos Estados-Unidos.

O rumor de um laço entre Saddam e a Al-Qaida é finalmente abandonado em proveito de um casus belli mais elaborado: a ameaça que constituiria para o mundo o stock de armas de destruição maciça detido por Saddam. Para tornar credível esta outra mentira, Cheney e Rumsfeld renovam a estratégia provada do Team B, consistindo em duplicar a CIA através de uma estrutura paralela encarregada de produzir o relatório alarmista que precisam: esta estrutura será o Gabinete dos planos especiais (OSP), unidade especial no seio do Gabinete Próximo-Oriente e Ásia do Sudeste (NESA) do Pentágono. Alcunhado como «aCabala», o OSP é controlado pelos neo-conservadores William Luti, Abram Shulsky, Douglas Feith e Paul Wolfowitz. A tenente-coronel Karen Kwiatkowski, que trabalhava para o NESA à época, testemunha em 2004 sobre a incompetência dos membros do OSP, que ela viu «usurpar avaliações estatísticas cuidadosamente analisadas, e por supressões de dados e distorções de análise de informação, transmitir mentiras ao Congresso e ao gabinete executivo do presidente». 

Em 2003, quando se torna claro que não se encontrou qualquer arma de destruição em massa no Iraque, os neo-conservadores repercutem alegações ridículas de Ariel Sharon, que afirma que o Iraque as transferiu secretamente para a Síria, assim como os seus cientistas nucleares. A 11 de novembro de 2003, o Congresso vota a Lei para que a Síria preste contas e para que a soberania libanesa seja restaurada , impondo sanções económicas «para que a Síria cesse de apoiar o terrorismo, meta fim à sua ocupação do Líbano, e pare o desenvolvimento de armas de destruição maciça» . A agressão contra a Síria só será desencadeada em 2011, sob o disfarce de uma guerra civil, mas ela estava já premeditada pelo menos desde fevereiro de 2000, logo que David Wurmser, num artigo intitulado «É preciso derrotar a Síria, nunca negociar», fazendo votos para um conflito que fará com que «cedo a Síria seja sangrada até à morte». 

Desde o 11-Setembro, o Irão está igualmente na linha de mira dos neo-conservadores, que fazem eco do Primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, declarando o Irão «Centro do terror mundial» numa entrevista ao Times de Londres de 2 de novembro de 2002, e apelando a um bombardeamento norte-americano ao Irão «no dia a seguir à invasão americana do Iraque». Certos neo-conservadores como Kenneth Timmerman, membro dirigente do JINSA, propagandeiam que o Irão protegeu Ben Laden e colaborou com a Al-Qaida.  Na primavera de 2008, o presidente Bush acusa o Irão de apoiar a insurreição no Iraque: «O regime de Teerão deve fazer uma escolha […] Se o Irão fizer a escolha errada, a América agirá para proteger os seus interesses, as suas tropas e os seus parceiros iraquianos».  Deve-se pois lembrar que a 4 de maio de 2003, o governo iraniano transmitiu a Washington, por intermédio do embaixador suiço em Teerão, uma proposta conhecida sob o nome de «agrande barganha» pelo qual o Irão, em troca do levantamento das sanções económicas que lhe foram impostas, comprometia-se a cooperar com os Estados-Unidos para estabilizar o Iraque e a lá estabelecer uma democracia laica, e dizendo-se pronto para outras concessões incluindo a paz com Israel. Powell foi impedido por Bush e Cheney de responder favoravelmente a esta proposta. Assim, resumiu o seu chefe de pessoal Lawrence Wilkerson: «ACabala secreta obteve o que queria: nada de negociações com Teerão».  No fim, o Irão foi colocado no banco dos réus pelo seu programa de pesquisa nuclear civil, que seria secretamente militar. Desde a publicação em 2005 de um primeiro relatório doNational Intelligence Estimate – (Avaliação de Inteligência Nacional,NdT)-(NIE) sobre o nuclear iraniano, que conclui por um provável objectivo militar, não se passa praticamente semana alguma sem que a ameaça não seja mencionada nos jornais televisivos. Durante este tempo, nada foi sequer murmurado a propósito do programa israelita, ilegal e sempre escondido, que dotou Israel de um stock de várias centenas de bombas atómicas. O facto que, em novembro de 2007, um novo relatório NIE  tenha revisto o perigo iraniano em baixa, mostra que o nível de alerta considerado não faz mais que refletir a relação de forças no interior do aparelho de Estado, respondendo as estimativas alarmistas às invectivas dos neo-conservadores, enquanto as estimativas prudentes exprimem a voz do comando militar, pouco inclinado a uma nova guerra após o descalabro iraquiano.

Paralelamente, falsos pretextos de guerra são regularmente criados. Sabe-se graças a Gwenyth Todd, conselheira sobre o Próximo-Oriente ligada à Quinta esquadra da Marinha dos EU, estacionada no Golfo pérsico, que pouco tempo após ser nomeado comandante desta esquadra em 2007, o vice-almirante Kevin Cosgriff ordenou manobras agressivas dos seus porta-aviões, e outros navios, com o objetivo de fazer os Iranianos entrar em pânico para que um disparo da parte deles permitisse desencadear a guerra desejada pelo lobbi pró-Israel. Cosgriff queria «colocar uma armada virtual à porta do Irão, sem aviso» , sem mesmo avisar Washington disso. A 6 de janeiro de 2008, o Pentágono anuncia que vedetas iranianas abriram fogo sobre os navios americanos USS Hooper e USS Port Royal em patrulha no estreito de Ormuz, ao mesmo tempo que emitiriam mensagens de ameaça como: «Vamos para cima de vós» e «Vósireis explodir em dois minutos.» As televisões mostraram um dos barcos iranianos pondo pequenos objetos brancos na água, apresentados como minas. Evocando este incidente excepcionalmente «provocatório e dramático», o chefe de estado-maior inter-armas Mike Mullen disse-se preocupado «pela ameaça colocada pelo Irão», e nomeadamente «pelaameaça de minagem dos estreitos», e diz-se pronto a utilizar «aforça letal» se for preciso . Na realidade, o incidente era totalmente falso. As vedetas iranianas, que patrulham quotidianamente esta zona, e aí se cruzam regularmente com os navios americanos, não haviam emitido nenhuma ameaça. O vice-almirante Cosgriff admitiu que as equipagens dos EU não tinham notado nada de inquietante, as vedetas iranianas não possuíam «nem misseis anti-navios, nem torpedos.» As mensagens rádio ameaçadoras não emanavam destes navios: «Nós não sabemos de onde é que elas vinham» admitiu a porta-voz da Quinta Esquadra, Lydia Robertson.

 

As eleições iranianas de 2009, e a contestação que se seguiu em Teerão, foram a ocasião de uma nova guerra psicológica utilizando as redes sociais pela internet e destacada pelos médias americanos. Em poucos dias, a morte de uma jovem mulher durante as manifestações é explorada como símbolo da opressão do regime islâmico. Neda Agha-Soltan teria sido morta a 20 de junho de 2009 por um “sniper” da milícia para-militar, quando acabava de sair da viatura com o seu professor de música. O vídeo da sua agonia filmado em directo por telefone portátil deu instantaneamente a volta ao mundo no Facebook, depois no YouTube. Várias reuniões tiveram lugar em sua homenagem em todo o mundo. Até se falou em atribuir-lhe o Prémio Nobel da Paz. O seu noivo, um fotografo de nome Caspian Makan, encontrou-se com Shimon Peres em Israel e declarou: «Eu venho a Israel como um embaixador do povo iraniano, um mensageiro do campo da paz.» E acrescentará: «Eu não tenho nenhuma dúvida que o espírito e a alma de Neda estavam connosco aquando deste encontro presidencial». Infelizmente, as incoerências acumulam-se: 1) existem de facto três vídeos da agonia de Neda, que se assemelham a várias «tomadas» da mesma cena;
2) o visionamento imagem a imagem mostra que a jovem, por reflexo, coloca a sua mão em terra para amortecer a queda. O seu sistema nervoso central continuou a funcionar o que prova que ela não foi morta pela bala
3) o mesmo visionamento mostra que a sua face está ensanguentada por meio de uma bolsa de sangue insuficientemente dissimulada na palma da mão
4) Uma entrevista à BBC do médico que assistiu à sua morte está repleta de contradições
5) A autópsia concluiu que Neda tinha sido morta à queima roupa, (ela foi pois morta pelos seus «amigos» durante o seu transporte para o hospital)
6) Por fim, o rosto tornado ícone planetário era na realidade o de uma outra jovem mulher, Neda Soltani. Esta tentou, em vão, fazer suprimir a sua foto na internet e, sentindo a sua vida em perigo, resignou-se a imigrar para a Alemanha, onde escreveu um livro,Mon visage volé – (O roubo da Minha Cara).

Entre os países visados pelos neo-conservadores após o 11-Setembro encontra-se também a Arábia saudita. A sua colocação no banco dos réus está inscrita no cenário do 11-Setembro, pelo facto de Oussama Ben Laden e de 15 dos 19 pretensos piratas do ar serem Sauditas. Foi David Wurmser quem abriu as hostilidades no Weekly Standard, com um artigo intitulado «Aconexão saudita» , pretendendo que a família real estava por trás do atentado. O Hudson Institute, um dos bastiões dos neo- conservadores, conduz de há muito tempo uma virulenta campanha de diabolização da dinastia saudita, sob a batuta do seu co-fundador Max Singer (hoje em dia director de pesquisa noInstitute for Zionist Strategies – (Instituto para a Estratégia Sionista, NdT) em Jerusalém). Em junho de 2003, o instituto patrocinou um seminário intitulado Os discursos sobre a democracia: a Arábia saudita, amigo ou inimigo? , onde todas as intervenções sugerem que «inimigo» é a resposta correcta. Um acontecimento especial saudou a saída do livro OReino do ódio: como a Arábia saudita apoia o novo terrorismo global , do Israelita Dore Gold, que foi conselheiro de Netanyahou e de Sharon, e embaixador de Israel nas Nações Unidas. A 10 de julho de 2002, o neo-conservador franco-americano Laurent Murawiec, membro do Hudson Institute e doCommittee on the Present Danger, intervêm diante do Defense Policy Board -(Gabinete da Política de Defesa,NdT)- de Richard Perle para explicar que a Arábia saudita representa « núcleo do mal, a força motriz, o adversário mais perigoso» , e recomendar que os Estados-Unidos o invadam, o ocupem e o dividam. Ele resume a sua «Grande estratégia para o Próximo-Oriente» nestas palavras: « O Iraque é o pivô táctico. A Arábia Saudita é o pivô estratégico. O Egipto é o prémio.»  Murawiec é o autor de várias obras de diabolização dos Saoud, entre os quais Os Príncipes das Trevas: o assalto dos Sauditas contra o Ocidente . O resenha do editor do seu livro francês La guerre au XXIe siècle – (A guerra no século XXI, NdT) merece ser citado: «O reino protegeu durante anos Ben Laden, formado aliás, no início, por uma unidade especial da CIA. A dinastia dos Sauditas financiou, com pleno conhecimento de causa, o terrorismo apoiando para isso centenas de organismos islâmicos pretensamente humanitários. O poder real conseguiu no decorrer dos anos infiltrar agentes de influência ao mais alto nível da administração americana e organizar um eficaz lobbi intelectual que controla, agora, várias universidades do país entre as mais prestigiosas.»

Embora omnipresentes no governo Bush, os neo-conservadores são, com efeito, os principais inspiradores da contestação soft (suave,NdT) do 11-Setembro, representada em França pelo jornalista Éric Laurent , que admite a responsabilidade da Al- Qaida mas concentra as suas pesquisas nas ligações entre os Bush, os Saoud e os Ben Laden. No seu livro já citado, La Fin du Mal-(O Fim do Mal,NdT)-(2003), Richard Perle, a eminência parda do Pentágono, e David Frum, o próprio redactor dos discursos do presidente Bush, afirmam que «OsSauditas se colocaram a si mesmos no Eixo do Mal»  e imploram ao presidente Bush para «dizer a verdade sobre a Arábia saudita» , ou seja que os príncipes sauditas financiam a Al-Qaida. Para compreender a inanidade de uma tal acusação, basta saber que os Saoud destituíram Oussama Ben Laden da sua nacionalidade em abril de 1994, exasperados pelas suas acusações incessantes contra a presença militar americana, que eles toleram nos lugares santos do Islão, desde a primeira Guerra do Golfo. Numa Declaração de guerra contra os Americanos que ocupam o país dos Dois lugares santos , difundida em 1996, Ben Laden apela ao derrube do seu regime e, em 1998, admite o seu papel no atentado de 13 novembro de 1995 contra o quartel general da Guarda Nacional em Riade. Oussama Ben Laden é inimigo jurado dos Saoud. É inimaginável que os Saoud tenham conspirado com ele contra os Estados-Unidos; pelo contrário, é plausível que eles tenham conspirado contra ele com os seus amigos do clã Bush, pondo-lhe um atentado às costas para lhe lançar o exército americano às canelas e, na mesma pancada, liquidar o regime Talibã às custas da UNOCAL. Tudo leva, pois, a crer que a família Bush está implicada no complô do 11-Setembro, (pensemos no papel jogado pelo irmão e pelo primo do Presidente, Marvin Bush e Wirt Walker III, à cabeça da sociedade Securacom que controlava o acesso ao WTC), mas que ela foi dobrada-(como numa cena de duplos,NdT)-e que George W. serviu depois de escudo humano aos neo-conservadores, cujos objectivos vão muito para lá de Ben Laden, do Afeganistão e do petróleo. Assim se explica com efeito,a posteriori, a escolha dos neo-conservadores para levar George W. Bush à presidência, um homem facilmente «missionado por Deus» (donde o sobrenome de Blues Brothers que ele partilha com o seu Attorney General John Ashcroft, outro cristão sionista). Como o resumiu o neo-conservador Michael Ledeen: Ele tornou-se presidente, mas sem saber porquê, e a 11-Setembro, ele descobriu o porquê.

Atirar a responsabilidade do 11-Setembro para cima de Ben Laden (sem provas e desprezando o desmentido repetido do interessado), permite aos neo-conservadores sabotar não só a aliança dos Estados-Unidos com a Arábia Saudita, mas também com o Paquistão. Já que atrás de Ben Laden, estão os Talibãs que o abrigam; e por trás dos Talibãs, está o Paquistão que suporta o seu regime. É pois igualmente o Paquistão que é indirectamente acusado após o 11-Setembro. Nenhuma acusação oficial é levantada, mas fugas orquestradas para a imprensa evocam cumplicidades no seio do ISI. O general Ahmed Mahmoud, director do ISI, é posto em causa numa informação relatada primeiro pelo The Times of India: «as autoridades americanas tentaram descartá-lo depois de terem tido a confirmação que 100000 dólares tinham sido transferidos para o terrorista Mohamed Atta, desde o Paquistão, por Ahmed Omar Saïd Sheikh [agente do ISI] por ordem do general Mahmoud ». Uma vez que Mohamed Atta não é neste assunto senão um “patsy”(espantalho-NdT), esta fuga de informação organizada só pode ser interpretada como um meio de chantagem contra o ISI e o Estado paquistanês para os forçar a cooperar com os Estados-Unidos na destruição do regime Talibã. Talvez o ISI tenha efectivamente fornecido dinheiro a Atta, o qual teria sido escolhido como chefe fictício dos terroristas precisamente para isto. Mahmoud, que se tinha deslocado várias vezes a Washington desde 1999, encontrava-se precisamente aí entre 4 e 11 de setembro de 2001. Ele teria então tido encontros com George Tenet, director da CIA, Marc Grossman, sub-secretário de Estado para os assuntos políticos, e talvez mesmo Condoleezza Rice, embora esta o tenha desmentido. Na altura dos atentados, ele participava num pequeno-almoço de trabalho com Bob Graham, presidente da Comissão senatorial de Informações, e Porter Goss, presidente da Comissão de Informações na Câmara dos Representantes; «Nós falamos do terrorismo, nomeadamente do gerado no Afeganistão» , segundo Graham, que com Goss será nomeado para a Comissão sobre o 11-Setembro. Não se sabe o que terá sido dito a Mahmoud após a notícia dos atentados, mas ele irá passar à reforma no mês seguinte, asfastar-se-á da vida política juntando-se ao movimento religioso Tablighi Jamaat num modo de levar consigo o seu segredo para a sua tumba.

Podemos imaginar, sem grande esforço, porque o sector do “Estado profundo” dos EU, que orquestrou o 11-Setembro, teria querido fazer pressão sobre o governo paquistanês: forçá-lo a alinhar com a tese oficial do 11-Setembro e, sobretudo, retomar as rédeas sobre este aliado indisciplinado, sob a ameaça de ser tratado como inimigo no caso de recusar cooperar («ou vocês estão connosco, ou vocês estão com os terroristas»). Mas pode-se também detectar, nos rumores sobre os laços entre a Al- Qaida e o ISI, uma vontade de envenenar as relações entre o Paquistão e os Estados- Unidos, mais do que melhorá-las. A encenação da captura de Ben Laden tende confirmá-lo. Ela permitiu acusar o Paquistão, após o Afeganistão, de ter abrigado Ben Laden durante uma dezena de anos, o que constitui aos olhos dos Norte-americanos uma verdadeira traição da parte de um país aliado. Vários livros defendem esta linha, como o do veterano da CIA Bruce Riedel, Abraço mortal: o Paquistão, a América e o Futuro da Jihad mundial.  Segundo Riedel, a vida tranquila de Ben Laden nos arredores de Abbotabad sugere «um grau incrível de duplicidade» da parte do Paquistão, que poderia ser «o patrão secreto da jihad global, a uma escala tão perigosa que é inconcebível. Nós teríamos então de repensar completamente a nossa relação com o Paquistão e o nosso entendimento dos seus objectivos estratégicos» .

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Andrew Cockburn reporta no seu livro sobre Rumsfeld (2007) esta conversa entre os dois George Bush: — O que é que é um neo-con? pergunta Júnior. — Tu queres nomes ou uma definição? — Definição. — Bom, eu dou-te uma, numa única palavra: Israel, responde o Pai.

A guerra contra o Iraque sob o pretexto das armas de destruição maciça inexistentes, a desestabilização da Síria por interpostos Contras, a ameaça de rebentar com o Irão sob o pretexto de um programa de armamento nuclear que não é encontrado, tudo isto testemunha uma vontade de abrasar o Próximo-Oriente, enquanto as acusações de cumplicidade com a Al-Qaida lançadas contra o Paquistão e a Arábia saudita visam corroer a aliança dos Estados-Unidos com estes países afim de que os Estados-Unidos não tenham mais do que um único aliado na região: Israel. O que parecem querer desencadear os cripto-sionistas é uma guerra mundial de onde sairão enfraquecidos e retalhados todos os inimigos de Israel, durante décadas, de modo que Israel poderá mesmo dispensar os Estados-Unidos, arruinados pelas suas despesas militares como o foi a URSS nos anos 80, e por acrescento detestados através do globo.

Num artigo do Wall Street Journal de 20 de novembro de
2001, o neo-conservador Eliot Cohen fala da guerra contra o
terrorismo como a «a IVa Guerra mundial», e o termo será
retomado por outros neo-conservadores. Em setembro de
2004, um colóquio neo-conservador em Washington incluindo Norman Podhoretz e Paul Wolfowitz intitulava-se «IVa Guerra mundial: Porque nos batemos, quem devemos combater, como nos batemos». Cohen declarava: «O inimigo, não é o terrorismo […] mas sim o islão militante». Como a Guerra fria (assimilada a uma IIIa Guerra mundial), a IVa Guerra mundial descrita por Cohen tem raízes ideológicas, será global e durará muito tempo, implicando numerosos tipos de conflitos. O tema da IVa Guerra mundial foi igualmente popularizado por Norman Podhoretz, no seu artigo «Como ganhar a IVa Guerra mundial» aparecido no Commentary em fevereiro de 2002, seguido por um segundo artigo em setembro de 2004, «A IVa Guerra mundial: como começou, o que significa e porque nós devemos vencer» , e para terminar um livro intitulado em 2007 IVa Guerra mundial: a longa luta contra o islamo-fascismo . No seu artigo de 2004, ele escreve: «Nós enfrentamos uma força verdadeiramente perversa no islão radical, e nos países que alimentam, abrigam ou financiam o seu exército terrorista. Este novo inimigo já nos atacou na nosso próprio solo — uma façanha que nem a Alemanha nazi nem a Rússia soviética conseguiram — e anuncia abertamente a sua intenção de nos atingir de novo, desta vez com armas infinitamente mais potentes e mortais que as utilizadas a 11-Setembro. O seu objectivo não é simplesmente assassinar o maior numero de entre nós e de conquistar a nossa terra. Como os Nazis e os comunistas antes dele, ele está determinado a destruir tudo aquilo que é bom no que a América representa». 

Parece evidente que os neo-conservadores têm a intenção de legar como herança à humanidade uma guerra mundial de aniquilação contra a civilização islâmica. Um tal hubris é incompreensível sem um conhecimento da natureza histórica do sionismo e das suas formas extremistas. O sionismo é antes de mais um sonho bíblico: «A Bíblia é o nosso mandato»,proclamava em 1919 Chaim Weisman, futuro primeiro presidente de Israel em 1948. David Ben Gourion, embora agnóstico, era possuído pela história bíblica, ao ponto de adoptar o nome de um general judeu que combateu contra os Romanos. «Não pode haver educação política ou militar válida a propósito de Israel sem um conhecimento aprofundado da Bíblia», repetia. Antecipando um ataque contra o Egipto em 1948, ele escreve no seu jornal: «Isto será a nossa vingança pelo que eles fizeram aos nossos antepassados nos tempos bíblicos.».  Ora, o sonho bíblico em que se inspiram os sionistas é baseado sobre a noção de «povo eleito», o que é um «racismo metafísico». Os pais do sionismo, maioritáriamente ateus, transpuseram esta noção para a ideologia dominante do seu tempo, em concorrência com o racismo germânico. Moses Hess, que inspirou o fundador histórico do sionismo Theodor Herzl, opunha às teorias do seu amigo Karl Marx a ideia que as guerras de raças são mais importantes na história que as lutas de classes, e afirmava que «araça judia é uma raça pura» de caracteres «indeléveis».

Escutemos igualmente Zeev Jabotinsky, figura maior do sionismo: «Um judeu culto no meio de Alemães pode certamente adoptar os hábitos alemães, a língua alemã. Ele pode ficar totalmente impregnado por este fluido germânico, mas permanecerá sempre um judeu, porque o seu sangue, o seu organismo e o seu tipo racial, no plano corporal, são judeus.»Estas frases foram escritas em 1923, dois anos antes do Mein Kampf de Hitler. Sionismo e nazismo conviveram bem até ao fim dos anos 30, como o demonstrou Lenni Brenner. O rabino Joachim Prinz, que se tornará presidente do American Jewish Congress – (Congresso Judeu Americano, NdT) – de 1958 à 1966, celebrava em Berlim em 1934 as leis raciais alemãs no seu livro Nous, les juifs – (Nós , os judeus, NdT): «Um Estado construido sobre o princípio da pureza da nação e da raça pode ser honrado e respeitado por um judeu que afirma a sua pertença à comunidade dos seus semelhantes.» Pelo contrário, segundo Prinz, os judeus assimilacionistas são os inimigos do sionismo tanto quanto do nazismo.

Em 1947-48, o racismo sionista abateu-se sobre os Palestinianos sob a forma de uma limpeza étnica que fez fugir 750.000 de entre eles, ou seja mais da metade da população nativa o que relembra a ordenada por Yavé contra os Cananeus: «fazer tábua rasa das nações das quais Yavé teu Deus te entregou o domínio, desapossá-los e habitar nas suas cidades e nas suas casas» (Deut 19:1) e, nas cidades que resistam, «nadadeixar subsistir vivo» (20:16). Para uma comunidade como para um individuo, o problema não vem de se crer o Eleito, mas de se crer eleito por um deus chauvinista, racista e genocidário.

O sonho bíblico insuflado por Yavé ao seu povo eleito, tanto no livro do Êxodo como nos livros dos profetas, não é apenas um sonho racial e nacional; é muito claramente um sonho imperial. Jerusalém deverá tornar-se o centro dominante do mundo. Lembram-se muitas vezes estes versos do segundo capítulo de Isaías como prova que a mensagem profética é pacífica: «Eles quebrarão as suas espadas para fazer delas relhas de arados, e as suas lanças para fazer delas foices. Nenhuma nação erguerá mais a espada contra outra nação, não se aprenderá mais a fazer a guerra.» Mas omitem sempre os versos precedentes, que indicam que este tempo de paz só chegará quando «todas as nações» renderem homenagem «na montanha de Yavé, na Casa do Deus de Jacob», assim que Yavé, no seu Templo, «julgaráentre as nações.» Em certos círculos intelectuais, o sionismo moderno concebe-se ainda como um projeto de Nova ordem mundial. Jacques Attali vê-se assim a «imaginar, sonhar com uma Jerusalém tornada capital do planeta que será um dia unificado em torno de um governo mundial.»

 

O sonho bíblico de império é indissociável de um prévio pesadelo de guerra mundial. O profeta Zacarias, muitas vezes citado nos fóruns sionistas, prediz no seu capítulo14 que Yavé combaterá «todas as nações» coligadas contra Israel. Num único dia, toda a terra se tornará um deserto, à excepção de Jerusalém, que «será içada e permanecerá no seu lugar». O talento profético de Zacarias parece ter-lhe dado uma visão do que Deus poderá fazer com armas atómicas: «E eis qual será a desgraça com que o Eterno atingirá todos os povos que tenham combatido contra Jerusalém: ele fará cair a sua carne apodrecida enquanto estejam de pé sobre os seus pés, os seus olhos fundir-se-ão nas suas órbitas, e a sua língua se fundirá na sua boca.» Só após esta carnificina é que virá a paz mundial: «Acontecerá que todos os sobreviventes de todas as nações, que marcharam contra Jerusalém, subirão ano após ano a prostrar- se diante do rei Yavé Sabaot e a celebrar a festa das Tendas. Aquela das famílias da terra que não subir a prostrar-se em Jerusalém, diante do rei Yavé Sabaot, não terá chuva para si. Etc.»

 

O general Wesley Clark testemunhou em numerosas ocasiões, diante das cameras, que uma dezena de dias após o 11 de setembro de 2001, aquando de uma visita ao Pentágono para lá se encontrar com Rumsfeld e Wolfowitz, ele soube por um general, que ele recusa identificar, que a decisão de invadir o Iraque estava já tomada ao mais alto nível. Duas semanas mais tarde, quando as operações tinham começado no Afeganistão, Clark perguntou ao mesmo general se ainda havia a intenção de invadir o Iraque, e este respondeu-lhe, exibindo um documento: «Oh, é pior do que isso. Eu tenho aqui um memorando que descreve como se vai tomar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália e o Sudão, e acabando pelo Irão». Ora, segundo o Deuteronómio 7, Yavé entregará a Israel «sete nações maiores e mais poderosas que tu. […] Yavé teu Deus entregar-tas-á, elas permanecerão submetidas a grandes aflições até que elas sejam destruídas. Ele entregará os seus reis ao teu poder e tu apagarás o seu nome por debaixo dos céus». Estas «setenações», ainda evocadas em Josué 24:11 e Actos 13:19, fazem parte dos mitos sionistas inculcados aos estudantes israelitas desde a idade dos nove anos, com o culto da guerra santa. Conformando o ensinamento de Leo Strauss, o projecto neo-conservador de atacar «sete países» alimenta-se do mito bíblico das «sete nações».

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