A CIA, o 11 de setembro, o Afeganistão e a Ásia Central

O INÍCIO DA GUERRA DO TERROR DOS ESTADOS UNIDOS (1/3)

Por Peter Dale Scott

 

Na altura da colocação à venda da edição francesa de «A máquina de guerra norte-americana», o mais recente livro de Peter Dale Scott, a Rede Voltaire publica um detalhado estudo deste diplomata canadiano sobre os atentados do 11 de Setembro de 2001. Peter Dale Scott sublinha neste trabalho uma série de elementos que revelam a actuação premeditada de uma facção do complexo militar-industrial norte-americano.

 

A CIA, o 11 de setembro, o Afeganistão e a Ásia Central

A montagem de uma série de provocações destinadas a justificar uma intervenção militar é realizável e poderia concretizar-se com a ajuda dos recursos disponíveis.” Informe do J-5 da Junta de Chefes de Estados Maior Inter-Armas dos Estados Unidos (JCS), 1963 [1]

A guerra de terror de Bush e a manipulação dos dados de inteligência

A 11 de setembro de 2001, nas horas que se seguiram aos mortíferos ataques perpetrados naquele dia, George W. Bush, Donald Rumsfeld e Dick Cheney embarcaram os Estados Unidos no que posteriormente chamaram a «guerra contra o terrorismo». Na minha opinião, deveríamos chamá-la realmente a «guerra do terror» já que foi utilizada contra os civis, de forma repetida e por todos os beligerantes, incluindo os actores representantes dos Estados. Uma guerra do terror caracteriza-se pela preponderância do uso de armas de destruição que actuam de forma indiscriminada, seja com artefactos explosivos improvisados (AEI) colocados à beira das estradas ou de mísseis disparados do ar por drones (aviões telecomandados) de alta tecnologia. [2]

À guerra do terror podemos vê-la também como elemento de um processo mais amplo, de alcance global. Na guerra do terror todas as potências importantes recorrem ao terror contra os civis no quadro de campanhas estreitamente ligadas entre si – A China na região de Xin jiang e a Rússia na Chechénia, do mesmo modo que os Estados Unidos em inúmeras regiões do Mundo. [3] No seu contexto global, a guerra do terror pode ver- se como a última etapa da extensão secular da civilização transurbana a zonas em que prevalece uma resistência rural. Nessas regiões pode-se comprovar que as formas clássicas de guerra não conseguem chegar a um resultado esperado, por razões geográficas e culturais.

A guerra do terror foi formalmente declarada por George W. Bush na noite de 11 de setembro de 2001, quando anunciou no seu discurso à nação que os Estados Unidos não reconheceriam «diferença alguma entre os terroristas que perpetraram estes actos e quem os alberga» [4] Mas a noção segundo a qual o objetivo da guerra do terror de Bush era perseguir os terroristas perdeu a sua credibilidade em 2003, quando se aplicou essa fórmula ao Iraque de Saddam Hussein, país conhecido não por albergar terroristas mas sim como limpo de terrorismo [5] Em 2005, aquela noção continuou a perder credibilidade como consequência da publicação na Grã- Bretanha do que se conhece como o Memo de Downing Street. Nesse documento, o director do MI6, os serviços britânicos de inteligência exterior, informava – depois de uma visita a Washington, em 2002 – que «Bush queria derrubar Saddam Hussein mediante uma acção militar, justificada pelo vínculo entre terrorismo e as ADM (Armas de Destruição Maciça. NdlR.). Mas os factos e os dados de inteligência estavam falseados para corresponder aos objetivos políticos» [6] Posteriormente, toda uma serie de histórias falsas que vinculavam o Iraque com as ADM, o antraz e o concentrado de mineral de urânio do Níger (o «yellow cake» – «bolo amarelo») apareceram na imprensa no momento oportuno.

Este ensaio demonstrará que antes do 11 de setembro de 2001 uma pequena facção no seio da Unidade bin Laden da CIA e das agências vinculadas a esta, o chamado «grupo Alec Station», já vinha manobrando também para «falsear» os dados de inteligência mediante a sua supressão. Essa manobra permitiu iniciar a guerra do terror, de maneira premeditada ou não. Consistiu em esconder ao FBI uma série de provas sobre 2 dos futuros presumíveis piratas aéreos do 11 de setembro, Khaled al-Mihdhar y Nawaf al-Hazmi, para evitar que o FBI vigiasse a esses dois indivíduos e aos seus colegas antes dos atentados.

Os autores do Relatório da Comissão sobre o 11 de Setembro reconheceram esse fracasso na troca de informações. Mas consideraram-no um acidente que teria podido evitar-se «se se houvesse consignado mais recursos» [7] Essa explicação foi refutada posteriormente por Thomas Kean, o presidente da Comissão sobre o 11 de Setembro. Recentemente, quando dois realizadores lhe perguntaram se o fracasso em relação a al- Mihdhar y al-Hazmi podia ser um simples erro, Kean respondeu:

«Oh, isso não foi uma omissão motivada por negligência. Foi intencional. Não há dúvida nenhuma. […] Nós chegamos à conclusão que essas agências têm o secretismo no seu ADN. E esse secretismo leva-as a não partilhar a sua informação seja com quem for.» [8]

Em 2011, um importante livro de Kevin Fenton, Disconnecting the Dots (« Desatando os nós»). [9] demonstrou de forma irrefutável que a retenção de informação tinha sido intencional, e que se tinha aplicado no decorrer de um período de 18 meses. Essa interferência e manipulação tornaram-se especialmente flagrantes e polémicas nos dias anteriores ao 11 de setembro, a ponto de levar Steve Bongardt, um agente do FBI, a predizer a 29 de agosto de 2001 – o seja, menos de 2 semanas antes do 11 de setembro – que «um dia, isto custará vidas» [10]

Como veremos posteriormente, as razões que motivaram essa retenção de informação continuam a ser um mistério. Houve uma altura em que eu mesmo estive de acordo com as especulações de Lawrence Wright, que cria ser possível que a CIA quisesse recrutar os dois sauditas e que «estivesse a proteger também uma operação no estrangeiro [possivelmente em coordenação com a Arabia Saudita], e temesse portanto que o FBI a revelasse» [11] O objetivo deste ensaio é sugerir que as razões que motivaram essa retenção de informação podem ter estado vinculadas ao objetivo, muito mais amplo, dos neoconservadores, objetivos que estes impunham então à política externa dos Estados Unidos: a consolidação da hegemonia global norte-americana mediante o estabelecimento de bases avançadas à volta das jazidas petrolíferas da Ásia Central.

Em resumo, a retenção de provas pode ser vista como um elemento do esquema, mais amplo e sinistro, que vinha a desenvolver-se naquela época, incluindo a ineficácia do governo dos Estados Unidos na sua resposta aos ataques do 11 de setembro, assim como os envios de cartas que continham antraz – o que facilitou a votação do Patriot Act.

Hoje em dia, os trabalhos de Kevin Fenton convenceram-me que a explicação de Lawrence Wright – sobre o facto que a CIA estava protegendo uma operação secreta – pode explicar também porque a retenção de provas começou em janeiro do ano 2000, mas não consegue explicar a sua reactivação nos dias anteriores ao 11 de setembro. Fenton analisa uma lista de 35 ocasiões diferentes em que os presumíveis sequestradores aéreos foram protegidos dessa maneira – desde janeiro do ano 2000 até a 5 de setembro de 2001 mais ou menos. [12] Veremos que, segundo a sua análise, esses incidentes podem classificar-se em duas categorias essenciais. Os motivos que Fenton atribui à primeira categoria eram «cobrir uma operação da CIA que já estava em marcha» [13] Sem embargo, quando já «todos os alarmes do sistema [de segurança nacional] estavam no vermelho» no verão de 2001, e a CIA esperava um ataque iminente, Fenton conclui, ao não poder encontrar outras explicações, que «o objetivo da retenção de informação era, a partir daí, permitir o desenvolvimento dos ataques» [14]

Esta última citação de Fenton implica que os membros do «grupo Alec Station» cometeram um crime, mesmo que esse crime não constitua um assassinato premeditado mas sim um homicídio involuntário. Poderíamos imaginar, com efeito, várias razões bem- intencionadas para essa retenção de informação. Por exemplo: talvez a CIA tenha tolerado as ações dos dois sauditas para poder localizar os seus companheiros. Nesse caso, tratar-se-ia de um simples erro de cálculo, mesmo que tenha dado lugar a homicídio.

A guerra do terror e o projecto de dominação global de Donald Rumsfeld, Dick Cheney e Paul Wolfowitz

No entanto, no quadro deste ensaio, vou deter-me nas actividades que realizou no Uzbequistão o director da Unidade bin Laden da CIA, Richard Blee. Uzbequistão era uma zona que preocupava muito Blee e o seu superior, Cofer Black. Mas era também um lugar muito interessante para Dick Cheney. Com efeito, a Haliburton, a empresa que Cheney dirigiu entre 1995 e o ano 2000, participava desde 1997 – inclusive antes – na exploração das reservas petrolíferas da Ásia Central. Em 1998, num discurso ante os magnatas do petróleo, o próprio Cheney declarou: «Não me recordo de ter visto uma região emergir tão repentinamente como zona de grande importância estratégica como é o caso hoje da bacia do Cáspio» [15]

Vou demonstrar que o objetivo e o resultado da protecção aos dois sauditas pode ter sido alcançar os objetivos de Dick Cheney, de Donald Rumsfeld e do Projecto para o Novo Século Americano (PNAC segundo as siglas em inglês correspondentes a Project for the New American Century). Com efeito, o projecto desta facção dos neoconservadores consistia em estabelecer «forças preposicionadas» na Ásia Central [16] Veremos que, mesmo a 11 de setembro, numa chamada telefónica do director da CIA George Tenet a Stephen Cambone (uma figura central do PNAC no Pentágono), o próprio Tenet parece ter transmitido a Cambone certos dados importantes que nunca chegaram ao FBI.

Um dos objetivos desse plano dos neoconservadores era manter o domínio dos Estados Unidos e Israel nessa região, por razões de segurança. Como vamos a ver, o projecto desse grupo consistia também em criar condições favoráveis para futuras acções preventivas unilaterais contra vários Estados inamistosos, como Iraque. Esse plano do PNAC foi elaborado, em particular, para estabelecer novas bases militares permanentes no Médio Oriente, antecipando o previsível anúncio que fez Donald Rumsfeld em 2003 ao afirmar que os Estados Unidos retirariam da Arabia Saudita «praticamente todas as suas tropas, com excepção do pessoal destinado ao treino [militar]» [17] Sem embargo, outro objetivo desse plano era reforçar a influência norte-americana nos Estados da Ásia Central que acabavam de obter a independência e que dispunham de importantes reservas – não confirmadas – de gás e petróleo.  Nesse contexto, a alarmante conclusão de Fenton sobre os actos da CIA, que conduziram aos ataques do 11 de setembro, ganha maior importância em relação com o plano do PNAC. O mesmo sucede se nos detemos nas outras 3 anomalias flagrantes da guerra do terror de George W. Bush.

A primeira anomalia é o paradoxo que representa o facto desta suposta luta contra al-Qaeda se realizar em conjunto com a Arabia Saudita e Paquistão, precisamente as duas nações mais activas no apoio a essa organização através do mundo. Veremos neste ensaio como os serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Arabia Saudita cooperaram para proteger os agentes sauditas no seio da al-Qaeda, em vez neutralizá-los.

A segunda anomalia: ainda que a CIA possa ter-se mobilizado para destruir al-Qaeda, Rumsfeld y Cheney tinham desde o princípio a intenção de iniciar uma guerra numa escala muito maior. Em setembro de 2001, nenhuma informação sobre o 11 de setembro vinculava o Iraque aos atentados. Apesar disso, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld, com o apoio do seu adjunto Paul Wolfowitz, observava já a 12 de setembro «que não existiam alvos decentes para bombardeio no Afeganistão e que deveria considerar-se o bombardeio do Iraque, o qual, disse ele, tinha melhores alvos» [18] O argumento de Rumsfeld estava apoiado por um documento do Departamento da Defesa preparado para as reuniões que se desenrolaram em Camp David a 15 e a 16 de setembro de 2001, documento que «propunha que “os alvos com prioridade imediata para as acções iniciais” deviam ser al-Qaeda, os talibãs e o Iraque» [19]

O Iraque era um alvo para Rumsfeld y Wolfowitz desde pelo menos 1998, ano em que os dois assinaram uma carta do PNAC, dirigida ao então presidente Bill Clinton, em que pediam o «derrube do regime de Saddam Hussein» [20] Mas o Iraque não era o único alvo no plano de Cheney, Rumsfeld y Wolfowitz – plano que, pelo menos desde 1992, tinha como objetivo nada mais e nada menos que o domínio global dos Estados Unidos, ou o que o ex-coronel norte-americano Andrew Bacevich chamou «a hegemonia americana global e permanente» [21] Essa era uma alta prioridade para os neoconservadores. Inclusive antes que George W. Bush fosse eleito pelo Supremo Tribunal, em dezembro do ano 2000, já Cheney vinha manobrando para garantir postos chave aos assinantes da carta do PNAC de 1998 (incluindo Richard Armitage, John Bolton, Richard Perle, assim como outro pessoal do PNAC, como Stephen Cambone ) na Casa Branca, no Departamento de Estado e no Departamento de Defesa.

Desde o início, a guerra do terror tinha sido concebida como uma via para concretizar o projecto de hegemonia global. A 24 de setembro de 2001, Condoleezza Rice, conselheira de Segurança Nacional, «abordou a questão do apoio estatal ao terrorismo: Qual é a nossa estratégia a respeito dos países que apoiam o terrorismo, como Irão, Iraque, Líbia, Síria e Sudão?’» [22] Nas suas memórias, o general Wesley Clark revelou que desde novembro de 2001 aquela pergunta se tinha convertido num plano quinquenal para o Pentágono:

«Quando voltei ao Pentágono em novembro de 2001, um dos principais oficiais entre os principais responsáveis do exército teve uma conversa comigo. Sim, continuávamos na rota para atacar o Iraque, disse-me. Mas havia mais. Isto era discutido como parte do plano de uma campanha de cinco anos, disse-me ele, e envolvia um total de sete países, começando com o Iraque, depois a Síria, Líbano, Líbia, Irão, Somália e Sudão.» [23]

Naquela época, o ex-oficial da CIA Reuel Marc Gerecht publicou um artigo no The Weekly Standard apoiando a necessidade duma mudança de regime no Irão e na Síria. [24] (, Gerecht continua a advertir nesse semanário neoconservador sobre a ameaça que representam esses dois países actualmente.).

Nos tempos de Clinton, Gerecht, como Cheney e Rumsfeld, fazia parte do Projecto para o Novo Século Americano (PNAC, siglas em inglês), facção belicista que exortava a uma acção militar contra o Iraque em particular, e mais geralmente pedia um grande orçamento de Defesa, que levasse a um «aumento considerável dos gastos de defesa» para favorecer «a causa de liderança [global] dos Estados Unidos». O relatório do PNAC publicado em setembro do ano 2000 – Rebuilding America’s Defenses (Em Português, “Reconstruir as defesas da América”) – abordava amplamente o petróleo do Golfo Pérsico e a importância de manter e reforçar «forças preposicionadas nessa região» [25]

́ interessante assinalar que em finais de 2001, pouco depois do 11 de setembro e do início da guerra do terror, os Estados Unidos já tinham estabelecido novas bases militares no Uzbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão. Os E. U. estavam assim numa muito melhor posição para influir nas políticas dos governos recentemente emancipados do leste da bacia do Cáspio – região rica em hidrocarbonetos. Através deste ensaio veremos que o acordo de 2001 que permitiu a instalação da primeira e mais importante dessas bases – a de Karshi-Khanabad (também chamada K-2), no Uzbequistão – se baseou num acordo anterior do Pentágono, completado por um acordo de ligação da CIA negociado em 1999 por Richard Blee, do «grupo Alec Station» (Blee é um personagem central neste ensaio). A maioria dos norte-americanos ignoram que a 11 de setembro já havia Forças Especiais dos E.U. colocadas na base K-2 no contexto de uma missão uzbeque de treino militar. Tampouco sabem que a 22 de setembro de 2001, duas semanas antes de um acordo militar formal entre os exércitos dos Estados Unidos e do Uzbequistão, «a CIA já estava enviando suas equipas para a enorme base aérea de Karshi-Khanabad, ou K-2, situada no sul do Uzbequistão, onde engenheiros do US Army estavam a reparar a pista» [26]

A terceira anomalia desta «guerra contra o terrorismo» é que conduziu a um evidente aumento de uso do terror, leia-se tortura, por parte dos próprios Estados Unidos e inclusive contra os seus próprios cidadãos. Há que assinalar, nesse aspecto, que Dick Cheney e Ronald Rumsfeld, através da sua participação no ultra secreto «Projecto Juízo Final» do Departamento de Defensa, tinham participado também na planificação da Continuidade do Governo (Continuity of Government ou COG). Nos Estados Unidos, o COG estava destinado a minar o Bill of Rights (Em Português, a Declaração de Direitos. NdT.) mediante a vigilância sem mandato e a detenção arbitrária dos dissidentes políticos [27] Essa planificação – cuja origem provêm do medo aos comunistas, reflectido no macarthismo dos anos 1950 – serviu de base aos complexos planos que desenvolveram o Pentágono e outras agências para contra-atacar os protestos dos movimentos anti-belicistas contra o seu objetivo comum: instaurar o domínio global dos Estados Unidos.

Como já se explicou anteriormente, os Estados Unidos gastam anualmente milhares de milhões de dólares no sector da segurança interna. Estes gastos devem-se em grande parte à crença – formulada pelo coronel do US Marine Corps Oliver North – que a guerra do Vietname se perdeu nas ruas das cidades norte-americanas e que é necessário limitar essa capacidade civil de dissuasão contra as operações militares dos Estados Unidos [28] Como membros do chamado «Projecto Juízo Final» para a planificação da Continuidade de Governo (COG), Cheney e Rumsfeld contribuíram para esses esforços [29] Em resumo, o 11 de setembro permitiu a aplicação de programas que uma pequena facção de responsáveis norte-americanos já tinha encarado muito antes, ou seja permitiu concretizar novas políticas radicais na Ásia Central, mas também permitiu implantar mudanças nos próprios Estados Unidos.

É ao mesmo tempo difícil e doloroso encarar a possibilidade de crime de homicídio sugerido pelas meticulosas investigações de Kevin Fenton. Os Estados Unidos atravessam hoje uma crise provocada pelas actividades de bancos considerados demasiado importantes para permitir sua falência («Banks Too Big to Fail»). Como se sublinhou, esses bancos eram também demasiado importantes para permitir a prisão dos seus dirigentes («Banks Too Big to Jail»). Com efeito, castigar os seus dirigentes como se fossem vulgares criminosos poria em perigo a estrutura financeira, já ameaçada, dos Estados Unidos [30] O presente ensaio expõe, de forma detalhada, um fenómeno similar, o que poderia ser um crime demasiado importante para ser castigado («Crime Too Big to Punish»).

E finalmente, como veremos, o 11 de setembro tem pontos em comum com o assassinato de John F. Kennedy.

A dissimulação à volta do 11 de setembro e o papel da CIA na realização dos ataques

Dez anos depois é importante reavaliar o que se sabe ou não sobre os acontecimentos que conduziram ao 11 de setembro, especialmente no tocante às acções da CIA ou do FBI, assim como a recusa de comunicar informação crucial à Comissão sobre o 11 de Setembro.

Hoje podemos afirmar com confiança:

1) que as verdades mais importantes continuam sem conhecer-se, em grande parte porque os documentos cruciais se mantêm em segredo ou consideravelmente censurados;

2) que prosseguem os esforços dissimulatórios, inclusive mais agressivamente que antes;

3) que, além da dissimulação, devemos analisar o que John Farmer, ex- membro da Comissão sobre o 11 de Setembro, chamou «uma incompetência administrativa sem precedentes ou uma mentira organizada» por parte de personagens chave em Washington [31]

Entre esses personagens contam-se o presidente George W. Bush, e o vice- presidente Dick Cheney, o general do NORAD Richard Myers e o director da CIA George Tenet. Também podemos citar Samuel Berger, o ex- conselheiro de Segurança Nacional do presidente Bill Clinton, que antes de testemunhar sobre estes temas se deslocou aos Arquivos Nacionais para dali retirar – e quiçá destruir – documentação crucial. [32] No seu livro, Farmer apoia ambas as hipóteses.

A primeira, ou seja «a incompetência burocrática sem precedentes», é na realidade a explicação que oferece a Comissão sobre o 11 de Setembro sobre as evidentes anomalias ligadas aos atentados e que marcaram os 20 meses anteriores a esses factos, quando a Unidade bin Laden da CIA (a chamada Alec Station) ocultava informação importante ao FBI. Sem embargo, graças ao importante novo livro de Kevin Fenton, Disconnecting the Dots, já não é possível continuar a atribuir o comportamento anormal da CIA a «problemas sistémicos», ou ao que Tony Summers designa precipitadamente como a «confusão burocrática» [33]

Baseando-se nos importantes livros de James Bamford, de Lawrence Wright, de Peter Lance e de Philip Shenon, Fenton demonstra de forma irrefutável que existia na CIA uma prática sistemática que consistia em esconder informação crucial para o FBI, inclusive quando o FBI normalmente tinha direito a conhecer essa informação. Também demonstra, com maior clareza ainda, que esse processo de retenção de informação se manteve sistematicamente ao longo das 4 investigações sucessivas realizadas depois do 11 de setembro: a investigação do Congresso presidida pelos senadores Bob Graham e Richard Shelby (parte da qual se mantêm classificada como secreta), a da Comissão sobre o 11 de Setembro, a do Inspector- Geral do Departamento de Justiça e a do Inspector- Geral da CIA.

O mais determinante nos trabalhos de Fenton é que demonstra que essas numerosas retenções de informação – tanto as anteriores como as posteriores ao 11 de setembro – foram obra de um número relativamente pequeno de indivíduos. A dissimulação de informação que devia ser do conhecimento do FBI foi principalmente obra do chamado «grupo Alec Station» – uma facção no seio da Unidade bin Laden da CIA (que por sua vez se conhece como «Alec Station» mas que é maior que o chamado “grupo”). O «grupo Alec Station» compunha-se maioritariamente de pessoal da Agência, mas incluía também alguns elementos do FBI. As figuras chave desse grupo eram o oficial da CIA Tom Wilshire (a quem a Comissão sobre o 11 de Setembro chama «John») e o seu superior directo na Alec Station, Richard Blee.

A dissimulação posterior ao 11 de setembro ao redor da actuação de Wilshire foi principalmente obra de uma só pessoa, Barbara Grewe. Esta última trabalhou primeiro na investigação do Inspector- Geral do Departamento de Justiça sobre o comportamento de Wilshire. Barbara Grewe foi transferida depois para dois postos sucessivos na equipa da Comissão sobre o 11 de Setembro, em cujo seio, e sob a autoridade do seu director executivo Philip Zelikow, logrou desviar a atenção dos investigadores, que se interessavam pelos resultados da CIA, para os do FBI [34] Independentemente de que Grewe tenha conduzido ou não as entrevistas com Wilshire e com outros funcionários dignos de interesse, «seguramente inspirou-se nelas ao redigir as suas partes nos relatórios da Comissão [sobre o 11 de Setembro] e nos do Inspector- Geral do Departamento de Justiça» [35]

As sucessivas transferências de posto de Barbara Grewe são sintomáticas de uma dissimulação voluntaria decidida a um nível hierárquico superior. Como vamos ver, o mesmo acontece com a mudança – em maio de 2001 – de Tom Wilshire, que passou da Alec Station (a Unidade bin Laden da CIA) ao FBI, onde começou uma nova etapa de interferências no fluxo normal da informação, organizando a obstrucção dentro do próprio FBI [36]

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Esse processo começa a partir da informação obtida graças à vigilância, por parte da NSA e da CIA, sobre uma importante reunião da cúpula dirigente da al-Qaeda em janeiro do ano 2000 – provavelmente o único encontro desse tipo antes do 11 de setembro. Nos Estados Unidos, essa reunião chamou instantaneamente a atenção dos responsáveis da segurança nacional devido à sus ligação indirecta com um elemento de apoio logístico (um telefone multilinhas baseado no Iémen que al-Qaeda utilizava). Suspeitava-se que aquele elemento de apoio tinha servido de centro de comunicação para os atentados com bombas realizados contra as embaixadas norte-americanas em 1998. Como assinala Kevin Fenton «[a] Agência deu-se conta que aquela reunião era tão importante que pôs ao corrente os directores do FBI e da CIA [Louis Freeh e Dale Watson],o conselheiro de Segurança Nacional Samuel Berger e outros altos responsáveis sobre as informações recolhidas naquela ocasião» [37]

Apesar disso, no seio da Alec Station, Tom Wilshire e a sua adjunta na CIA (designada como «Michelle») [38] blocked the effort of an FBI agent detailed there (Doug Miller) to notify the FBI that one of the participants (Khalid al-Mihdhar) had a US visa in his passportbloquearam as tentativas de Doug Miller – um agente do FBI destacado naquela unidade – de notificar o Bureau, (F B I –NdT ), que um dos participantes naquele encontro tinha um visto norte-americano no seu passaporte (tratava-se de Khaled al-Mihdhar) Fenton,. [39] Pior ainda, naquele momento, «Michelle» enviou a outras estações da CIA um telegrama falso. Este telegrama afirmava falsamente que «os documentos de viagem [de al-Mihdhar], incluindo um visto norte- americano de entradas múltiplas, tinham sido copiados e transmitidos “ao FBI com vista a mais amplas investigações”» [40] Alec Station absteve-se também de incluir os participantes daquele encontro numa lista de vigilância, como exigiam as directivas da CIA [41]

Começava assim um processo sistemático, e por vezes mentiroso, através do qual se ocultava sistematicamente ao FBI as informações da NSA e da CIA sobre Khaled al-Mihdhar e seu companheiro de viagem Nawaz al- Hazmi. Aquelas informações foram também deformadas, falseadas ou manipuladas para evitar toda investigação do Bureau sobre os dois sauditas e seus sócios. Esse processo é um aspecto importante da história do 11 de setembro. Com efeito, o comportamento daqueles dois aprendizes de piratas do ar era tão pouco profissional que, sem aquela proteção da CIA, garantida pelo «grupo Alec Station», é quase certo que teriam sido detectados e presos ou expulsos, inclusive muito antes que se preparassem para apanhar o vôo 77até Washington [42]

Kevin Fenton termina a sua investigação com uma lista de 35 ocasiões diferentes em que os dois presumíveis piratas aéreos foram protegidos daquela maneira – entre janeiro do ano 2000 e a 5 de setembro de 2001 mais ou menos, ou seja uma semana antes dos sequestros aéreos [43]

Na análise de Fenton esses incidentes podem classificar-se em 2 categorias principais. Os motivos que Fenton atribui à primeira categoria, como a retenção do telegrama de Doug Miller, eram «encobrir uma operação da CIA que já estava em marcha» [44] No entanto, ao referir-se ao momento em que «todos os alarmes do sistema [de segurança nacional] estavam no vermelho» no verão de 2001, e em que a CIA esperava um ataque iminente, Fenton conclui, ao não poder encontrar nenhuma outra explicação, que «o objetivo da retenção de informação era no futuro permitir o desenvolver dos ataques» [45]

Depois da sua transferência para o FBI, Tom Wilshire mudou ostensivamente a sua maneira de interferir. Enquanto esteve na CIA, Wilshire manobrou para impedir a transmissão de informação ao Bureau. Quando chegou ao FBI, empreendeu uma série de revisões daquela mesma informação, mas tão lentamente que esta não pode ter efeito antes do 11 de setembro. Fenton suspeita que Wilshire se antecipou a um possível controlo dos documentos que estava a manejar e que estava a semear neles uma série de pistas falsas para neutralizar os seus embaraçosos resultados [46]

Penso que devemos actualmente aceitar a conclusão proveniente das investigações de Kevin Fenton: «Está claro que a retenção daquelas informações não foi consequência de uma sucessão de eventos estranhos, mas sim que foi intencional.» [47] Eu sugiro, apesar disso, uma explicação diferente para aquelas intenções – explicação que, à primeira vista, pode parecer mais simples, mais inocente e também mais explicativa de outros aspectos do mistério do 11 de setembro (mesmo que esses aspectos possam parecer não estar relacionados).

(Continuará …)

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