“Deixem os bancos pagarem as suas próprias contas”

Por Mike Whitney

 

Merkel pressiona pela ditadura da banca na Eurozona

 

O Bundestag terá uma oportunidade de travar o plano de Angela Merkel de proporcionar centenas de milhares de milhões para bancos da UE que estão debaixo da água devido às más apostas que fizeram em títulos soberanos. Se o parlamento germânico deixar de bloquear Merkel no dia 23 de Setembro, então – sob o “poderes expandidos” do European Financial Security Facility ( EFSF) – os bancos insolventes serão salvos e os custos serão transferidos para os contribuintes da euro-zona.

Apesar da sua palração populista (“Nós não seremos intimidados pelos mercados”), Merkel é uma eurófila devota comprometida com uma união fiscal dominada por banqueiros e possuidores de títulos, uma ditadura da banca. Actualmente ela está a fazer tudo o que pode para acelerar o processo antes de guardiões hostis dos títulos irritarem os mercados e levarem o sistema bancário da UE ao crash. Isto é o que diz a revista Der Spiegel.

 

“Numa situação de pânico no mercado, o EFSF tem de actuar rapidamente”, disse Holger Schmieding, economista chefe do Berenberg Bank, ao Financial Times Deutschland. “Pode acontecer da noite para o dia ou num fim de semana”. Guntram Wolff, do think tank Bruegal com sede em Bruxelas, concorda. A aprovação parlamentar “não deve levar demasiado tempo”.

 

Soa familiar? O secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, utilizou a mesma estratégia após o colapso do Lehman Brothers em 2008 a fim de chantagear o Congresso por causa de US$800 mil milhões através do salvamento TARP. Mais uma vez, o medo de um colapso financeiro está a ser invocado para extorquir dinheiro de modo furtivo do povo trabalhador. Aqui está um extracto de outro artigo na Der Spiegel: 

 

“Os bancos estão de facto numa situação má. A maior parte deles ainda tem um bocado de títulos soberanos espanhóis, italianos, portugueses e irlandeses nos seus balanços e não está totalmente claro se estes acabarão por ser plenamente reembolsados. Isso por sua vez está a alimentar a desconfiança entre as próprias instituições financeiras e muitas cessaram de emprestar dinheiro umas às outras. Elas estão a ser mantidas vivas apenas porque o Banco Central Europeu (BCE) está a disponibilizar um montante ilimitado de dinheiro para elas e está a aceitar como colateral títulos que muitos investidores já não consideram seguros.

“Melhor capitalização para os bancos podia aliviar esta desconfiança, porque mais situação líquida significa que os bancos poderiam absorver melhor perdas do seu negócios de dívida soberana. Aquelas instituições que não são suficientemente fortes para por si próprias levantarem o dinheiro no mercado teriam de ser ajudadas com dinheiro público. Dificilmente haverá uma instituição mais adequada para essa tarefa do que o EFSF”.

 

Este excerto está errado sob muitos aspectos, é difícil saber por onde começar. O EFSF foi estabelecido para impedir o incumprimento de nações, não de bancos. A ideia de que especuladores de títulos podem ser comparados a governos representativos é risível. Os bancos estão em perturbação porque tomaram decisões más e agora devem enfrentar penosos haircutsnos seus investimentos. Accionistas serão eliminados e dívidas terão de ser reestruturadas. Isso não é o fim do mundo.

O que Merkel e companhia querem fazer é virar o sistema de pernas para o ar e transformar o EFSF num SPV (Special Purpose Vehicle) permanente fora do balanço autorizado a distribuir dinheiro público a bancos fracassados. E isto tudo está a ser feito para impedir seus banqueiros amigos de perderem dinheiro. Assim, por trás de toda a conversa fiada acerca de “unidade fiscal” e “consolidação das finanças do estado”, espreita a feia verdade de que a euro-zona é um sistema em duas camadas cuja arquitectura financeira é idêntica à da Enron. Não há nada de democrático num sistema que premeia elites perdulárias enquanto despeja as perdas para os trabalhadores. Isso é exactamente a velha cleptocracia.

A chanceler alemã é apoiada nesta luta pelos colegas no BCE e no FMI. De facto, a recém nomeada chefe do FMI, Christine Lagarde, está a liderar o movimento pelo Euro-TARP, o que pode explicar porque o seu processo de nomeação foi acelerado depois de Dominique Strauss Kahn ter renunciado enquanto aguardava investigação sobre acusações de violação em Nova York.

De qualquer modo, madame Lagarde já mostrou que está mais do que desejosa de fazer qualquer trabalho pesado que seja preciso para alcançar seus objectivos e obsequiar suas clientelas ricas. Eis como The Guardian resumiu o curriculum de Lagarde: “Christine Lagarde apoia a protecção dos grandes bancos … ela é a mais pró salvamento bancário de todos”.

Realmente. De modo que Lagarde lançou o seu peso em favor de salvamentos bancários, também conhecidos como recapitalização da banca. Ela também advoga fervorosamente “institucionalizar um governo económico europeu”, o que significa que pretende estabelecer um regime controlado por banqueiros e possuidores de títulos, a Bancotopia. Ao mesmo tempo, ela insiste em que este novo corpo governativo tenha o poder para intervir no processo orçamental dos [estados] soberanos da euro-zona a fim de “manter nossos esforços para expandir o âmbito da vigilância económica de modo a incluir défices governamentais e públicos bem como a dívida do sector privado, se necessários através da imposição de “penalidades políticas”.

Certo. Assim, este novo governo trans-UE será capaz de exigir obediência a estados erráticos que aprovam orçamentos que servem os interesses do seu povo ao invés dos interesses do grande capital. Enquanto isso, o Super-estado UE de Lagarde continuará a impor as mesmas políticas que tem aplicado desde o princípio da crise financeira; privatização em grande escala de activos e serviços do estado e programas de aperto de cinto que mantenham a economia num estado de Depressão permanente. Será isto o que está destinado à Euro-zona?

Recordar que os bancos já estão a obter salvamentos através do programa de compras de títulos do BCE que mantém os preços dos títulos artificialmente altos e evitar um incumprimento soberano. O facto de que Lagarde está a pressionar agressivamente por injecções de capital directas sugere que a condição dos bancos é muito pior do que qualquer pessoa tenha imaginado, razão porque – de acordo com o Wall Street Journal – “Ela sugeriu que o fundo de salvamento soberano já existente na UE (ESFS) podia ser utilizado para esta finalidade”. Isto é um exemplo clássico de dissimulação (bait and switch). 

Os parlamentares alemães têm oportunidade de por um ponto final de uma vez por todas nesta insensatez. Ao vetar Merkel, o Bundestag pode assegurar que o povo trabalhador da euro-zona não será roubado em centenas de milhares de milhões de dólares ou sujeito ao domínio autocrático de banksters parasitas. Deixem os bancos pagarem suas próprias contas.

Não ao EuroTARP!

 

05/Setembro/2011

 

[*] fergiewhitney@msn.com

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